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08
nov
10

Aikido e os aikidos ou Aikido e flores verdadeiras

Tamura Sensei - * 1933 / + 2010Artigo de Nobuyoshi TAMURA Sensei, 1979. Publicado originalmente na Revista da Federação Europeia de Aikido com o título “O Aikido e os Aikidos”
O Mestre Nobuyoshi TAMURA foi delegado da Aikikai de Tóquio para a Europa. Nasceu em 1933 em Osaka, em 1953 entra no AIKIKAI HOMBU DOJO como uchideshi do fundador Morihei Ueshiba. Em 1964 é enviado para França pelo fundador onde permaneceu até hoje.  Em 1999 é condecorado pelo governo Francês com a ordem “Chevalier de l’ordre National du mérite”. Faleceu em 2010.

Aikido e flores verdadeiras

Hoje em dia qualquer de nós pode ver no supermercado, no restaurante ou sobre uma tumba, e até nas igrejas, flores artificiais. Estas flores são fabricadas tão delicadamente que às vezes podemos confundi-las com as verdadeiras flores; são práticas, não necessitam nem de sol nem de água, são eternas e por muito tempo uma alegria para os olhos.
No entanto não suporto tais flores perto de mim. Não têm verdadeira vida. São todas parecidas, nenhuma difere da outra, nenhum botão com vida, sem rebentos, sem perfume e, quando chega ao Outono, não há sementes, nem folhas amarelas ou avermelhadas. Nem sequer caiem. É a imobilidade, e apesar da beleza das cores e das formas, a impressão que se experimenta é a de um mundo morto.
Em contrapartida, acerca das flores verdadeiras, frágeis, efémeras, mutáveis, nunca estáveis, sentimos o fluxo de uma vida eterna. Flores desaparecidas, folhas caídas no solo húmido do Outono, o silêncio imóvel do Inverno, sabemos que há aí uma promessa de vida, o retorno da Primavera.

As flores artificiais, tão belas, tão parecidas com as verdadeiras, que requereram para o seu fabrico tanta imaginação e talento, não serão nunca flores verdadeiras. Essas flores levam consigo tristeza eterna, o pesar de uma vida que não conhecemos, que não soubemos dar-lhes.
O Mestre Ueshiba faleceu em 1969, faz dez anos. Mas a sua imagem está sempre presente diante dos meus olhos. Vejo-o, sorridente, indo e vindo, ensinando.
Dez anos é pouco tempo, mas o que é que vemos? O que é que ouvimos? Quantos dizem: “O meu aikido é o verdadeiro Aikido”, “o meu Aikido é a evolução moderna do Aikido”, “eu ensino Aikido”. Surgem escolas… de onde vêm?
Confesso que não compreendo, este fenómeno não me entra na cabeça.
Mas o Aikido, todos os Aikidos, provêm de uma semente plantada por O’Sensei. Se são tão diferentes é, sem dúvida, porque nem todos cresceram na mesma terra, porque não receberam o mesmo sol, isso é o que explicaria a sua diferente cor, o seu aroma mais ou menos intenso, mas de qualquer modo são todos Aikido nascidos da mesma espécie, da mesma família.
No entanto, às vezes, chamamos Aikido a uma flor que não surgiu da mesma família de flores. Por exemplo, em França e Bélgica chama-se “achicoria” a duas plantas totalmente diferentes. Isto é aceitável e explica-se pelo facto dos homens poderem confundir as palavras e dar, assim, uma falsa denominação sem graves consequências.
Mas se alguém diz que uma túlipa artificial é da mesma família que uma túlipa verdadeira e que por isso devemos catalogá-la ao lado desta, isso é inaceitável.
Um falsificador que imita o quadro de um grande mestre comete uma falta que, no entanto, não é igual à de quem quer fazer crer que a flor artificial é uma flor verdadeira.
Na flor real há vida, na outra, pelo contrário não há vida.
Este tipo de falsificação é um ataque à divindade, uma blasfémia.
Aquele que pretende aprender Aikido por livros e filmes, ou ainda pior, a partir da sua imaginação que o leva a inventar movimentos, e que de seguida recebe dinheiro pelo seu ensino, este deveria saber que no seu Aikido não há rasto da herança de O’sensei, não existe a vida que o Mestre transmitiu. É um Aikido artificial. Acho que receber dinheiro e enganar as pessoas deste modo, é um crime.

19
out
10

Mudança interior e de comportamento por meio das artes marciais.

…..O Japão é um país de tradição belicosa. Durante séculos, houve conflitos de diversas escalas configuraram mente e espírito deste povo. Desde a formação do império, as tentativas de invasão mongol e a era das guerras civis (Sengoku Jidai), os japoneses sempre tiveram a consciência de que seu país era pequeno e limitado em termos de recursos naturais. Quase insignificante perto de potências estrangeiras, tal como a imensa China continental. Essa noção de inferioridade territorial possivelmente fez com que percebessem que sem o mais árduo esforço em desenvolvimento, poderiam ser dominados a qualquer momento.

 

Yabusame – belíssima tradição guerreira

 

…..Uma vez que os recursos disponíveis são limitados, é necessário um grande cuidado no seu uso e uma extrema especialização daqueles que estão envolvidos nas principais atividades de produção. Uma metodologia muito desenvolvida é requerida para produzir e passar os conhecimentos adiante.

…..Os japoneses são conhecidos no mundo todo por duas características principais: serem muito metódicos e decididos. Método e decisão são elementos básicos de processos administrativos que visam contemplar e desmantelar um problema para, através da criatividade e/ou esgotamento de possibilidades, alcançar uma solução. Reflexo da necessidade de analisar muito bem os pormenores para não desperdiçar recursos valiosos. Já o elemento decisão tem a ver com a certeza de que está no caminho certo, após muito ponderar. Posso afirmar que é um reflexo tanto disso quando da objetividade marcial inata deles, que segundo princípios elementares, um ataque hesitante, sem uma absoluta certeza pode falhar. Uma vez decidido, um japonês iria até o fim. Quem nunca ouviu falar que um japonês é “oito ou oitenta”?

…..Essa capacidade de síntese entre método e decisão, além de trabalho árduo levou seu país ao status de 2ª maior economia do mundo poucas décadas após uma destrutiva guerra. Mas qual é a origem de tal pensamento metódico e dessa sede de aperfeiçoamento?

…..Os treinamentos marciais japoneses levam em consideração tais elementos e por conseqüência, tornam-se ferramentas para o desenvolvimento espiritual do guerreiro/lutador/praticante. Abro um parêntese aqui para esclarecer sobre o emprego do termo “espiritual”: diferente do pensamento ocidental, onde espiritualidade está fortemente conectada com religiosidade, aqui o emprego da palavra se refere ao domínio da mente sobre as necessidades do corpo, utilizando-se da força de vontade interior para extrapolar limites físicos e disciplinar aspectos considerados negativos da personalidade humana, como preguiça, falta de perseverança e agressividade. Diz se que treinar o espírito é treinar a vontade de vencer.

 

Treino de Aikido

…..Ao se tornar cada vez mais experiente em sua tarefa, os detalhes técnicos são amplamente estudados em sua forma mais básica, possibilitando ao corpo reagir com posturas e movimentos considerados corretos pela teoria da arte em questão. A partir desse ponto é que possivelmente perceber que a evolução é diretamente proporcional ao esforço investido no planejamento técnico e físico do treinamento. E sem dúvida, algo muda na mente deste praticante maduro.

…..Tornando-se graduado em sua arte, é possível perceber que existe uma forte confiança em sua força e sua técnica, que o leva reflexões cada vez mais profundas a respeito da natureza do conflito, da agressão e da defesa pessoal.

…..A violência e uma eventual fatalidade são consideradas contraproducentes. É interessante que, através do treinamento de técnicas violentas percebemos que é lamentável que uma situação vá até o ponto onde elas sejam necessárias. Parece que, somente onde falha a diplomacia é que o uso da força militar será necessária. E a falha da diplomacia é a falha do próprio treinamento, tanto valorizado.

…..Eis aqui o ponto onde podemos introduzir a noção de “caminho”. JuDO, Aikido, Karate-DO, KenDO. Todas essas artes carregam o sufixo que indica que são mais do que uma mera prática marcial voltada para o conflito. Suponho que uma boa adaptação do termo “caminho” (道) seria “vivência” , pois a despeito de formulações históricas, tais artes podem ser consideradas meios de desenvolvimento físico e mental, onde o praticante está conectado a uma série de conceitos morais, éticos, filosóficos e até mesmo religiosos, que influenciariam seu modo de ser e pensar, pela vivência segundo tais princípios.

O Objetivo do Aikido é disciplinar o caráter humano pela aplicação dos princípios da espada japonesa.

O propósito de se praticar Aikido é:

Moldar a mente e o corpo,

Para cultivar um espírito vigoroso,

E pelo treinamento rígido e correto,

Lutar para desenvolver-se na arte do Aikido,

Obter respeito à cortesia e à honra,

Para relacionar-se com os outros com sinceridade,

E para sempre ter como objetivo o auto-aperfeiçoamento.

Dessa maneira será possível uma pessoa amar seu país e sociedade, contribuir para o desenvolvimento da cultura e promover a paz e prosperidade entre todos os povos.

…..Porém, muitos praticantes de artes marciais acabam por se tornar “mestres de si mesmos” ao se tornarem “teóricos marciais”, com conhecimento e discurso daquele que se considera esclarecido nesta complexa vivência, mas sem a carga de treinamento necessária para a real compreensão daquilo que se está falando. Mesmo o espírito estando aparentemente polido, o corpo pode não estar talhado suficiente para que haja real compreensão daquilo que a arte propõe. Estaria próximo da hipocrisia: muito se fala por discursos prontos e frases de efeito, pouco se faz ou se mostra.

…..Mesmo assim, é possível detectar uma mudança de comportamento no praticante de artes marciais, um tanto independente de qual seja. Fazer uma pessoa viver de acordo com princípios éticos, morais e afins geralmente foi papel da educação familiar, amparada pela orientação religiosa. E a possível falta destes valores na sociedade atual talvez se tenha criado um novo nicho para a arte marcial: a doutrinação espiritual.

 

Mokuso – meditação

…..Todo praticante de arte marcial conhece alguém que pode ser considerado um fanático em sua arte. Aquele colega considerado “bitolado”, não necessariamente talentoso, que vive e respira os conceitos da arte e os exterioriza sempre que pode para aqueles que tem paciência para ouvi-lo. O treino torna-se o centro de sua suposta recém adquirida moral e seu instrutor se torna o ídolo máximo – geralmente considerado invencível. Percebe-se um paralelo muito claro em relação ao fanatismo religioso.

…..Geralmente, esta mudança pode ser considerada positiva (explico a seguir) mas aconselho para ter cuidado para não se envolver com charlatães. Falsos mestres se aproveitam de pessoas leigas em cultura oriental e na estrutura federativa das modalidades marciais para extorquir dinheiro.

…..Mas retornando aos efeitos psicológicos negativos do treino levado exageradamente a sério: o praticante começa a se sentir superior e mais esclarecido do que qualquer outra pessoa ao discutir os aspectos marciais de sua arte ou de outras modalidades. Essa arrogância pode levá-lo a tratar mal novatos e pessoas leigas que se atrevem a ter uma opinião, além de possuir um sentimento falso de que é “digno” suficiente para treinar, e se acha no direito de julgar a motivação de outras pessoas em relação ao treinamento. Em casos extremos, torna-se um indivíduo alienado e violento, ansioso por testar suas habilidades, sozinho ou em grupo, possivelmente em pessoas leigas e fisicamente menos privilegiadas.

…..Mas nem tudo é exaltado pelo ego ou por fanatismo. Por outro lado, existe o preenchimento de valores que até então poderiam estar ausentes de prática, percebidos como virtudes necessárias para o desenvolvimento do bom praticante de artes marciais. E este é o ponto onde o valor do treinamento é justificado no discurso de grandes mestres e veteranos de prática.

…..Existe um estado de comparação entre a prática marcial séria e o cotidiano pessoal e profissional. Situações e atividades simples são desenvolvidas com mais cuidados, mais atenção, concentração e observação. Decisões envolvendo pessoas começam a ser mais bem planejadas, através de estratégia tanto de conduta do tratamento aos indivíduos quanto dos benefícios e ganhos como consequência. Essa mudança de postura do praticante é creditada à arte marcial, que através do treinamento esclarece a necessidade da cortesia e educação – graças à presença de um instrutor orientador e colegas parceiros de treino é que a evolução do aprendizado se torna possível. Sozinho, treinando golpes a esmo, nem sempre.

…..Dessa forma, é comum que as pessoas mais próximas do praticante de artes marciais percebam sutis mudanças em seu comportamento. Tal qual um iniciado em alguma doutrina religiosa, suas ações e palavras denunciam que ele abraçou uma nova postura em relação a vida. E muitas vezes, não faltam comentários ou brincadeiras de amigos e familiares utilizando o termo “lavagem cerebral”.

…..O fato é que, uma vez que pessoa abraça com profunda sinceridade este modo de vida, algo que lhe faltava, principalmente em termos espirituais (aqui, uma pequena licença para estabelecer um paralelo religioso) torna-a mais completa. Uma religião que mostra ao convertido uma forma de pensar e ver o mundo de forma construtiva e saudável para corpo e mente. Além do mais, existem alguns “ritos cerimoniais” e formalidades da cultura oriental que realmente parecem ter apelo religioso, como reverência a fotos de mestres falecidos, altares xintoístas ou cartazes escritos em kanji.

 

Tou-rei: reverência à espada

…..Qual é conclusão que pode ser oferecida? É interessante manter a mente flexível em relação a opiniões políticas e humanas de forma geral. Certo e errado podem ser muito relativos, por isso é preferível pensar em termos de “positivo” e “negativo”. Se o praticante se torna obsessivo em relação à prática, existem conseqüências naturais que ele deve encarar e não são necessariamente boas ou más. O fanatismo é considerado extremista por estar longe de um centro mais equilibrado. Por exemplo: negligenciar a vida profissional e social constantemente em função de treinamentos definitivamente não agrega nada, pois exclui o praticante da oportunidade de por em prática seus valorosos conceitos morais ao auxiliar as pessoas e fazer parte de algo maior.

…..Por isso, é interessante hoje em dia que haja a busca pelo equilíbrio entre as todas obrigações, sem exageros e sem negligências. Afinal, atuamos em diversas frentes no mundo moderno: somos profissionais em alguma área, estudantes, somos filhos, somos maridos, esposas, amigos e seres que buscam um propósito e um lugar no mundo. Foi-se o tempo em que a dedicação máxima, do custe o que custar, no desempenhar de uma função era considerado correto e valorizado. Dar a vida pela causa poderia ser nobre, mas é impraticável num mundo onde não podemos nos dar ao luxo de sermos egoístas e acreditar que nossa existência e a responsabilidade sobre ela estão apenas em nossas mãos. Vamos ser mais livres…

03
ago
10

A compreensão do Básico

Uma deficiência comum no treinamento de hoje é a falta da prática dos Atemi, ou ataques em pontos vitais. Os Atemi são usados para enfraquecer ou neutralizar um ataque do oponente  para criar-se assim uma situação favorável na qual pode-se   executar uma técnica. Em muitas situações é virtualmente  impossível desequilibrar um oponente forte, suficientemente para aplicar uma técnica sem recorrer-se ao Atemi. Aqueles que afirmam que o uso de tais ataques (executados com o intuito de  tirar atenção do oponente do objetivo principal da técnica) é   muito violento ou “não é Aikido” ignoram os conceitos do Aikido  ensinados pelo fundador que dava grande ênfase sobre a   necessidade de tais movimentos durante o treinamento. Os Atemi   são uma parte essencial das técnicas básicas e também avançadas,   e não devem ser omitidos de sua prática.

O fundador sempre iniciava as sessões práticas com os exercícios  de Tai no Henko e Morote Tori Kokyo Ho. Ele terminava cada  prática com o treinamento de Suwari Waza Kokyu Ho. Os exercícios   de Tai no Henko constituem a base dos movimentos Ura, ou   movimentos girando, e os dois Kokyu Ho, ou métodos de respirar,   ensinam como respirar corretamente, a coordenação apropriada do   corpo e como estender o Ki intensamente.

No treinamento do Aikido nós abrimos nossos dedos para estender o Ki através dos braços.

Abrir os dedos é uma forma de aprender as técnicas básicas, um treinamento que permitirá a você executá-las sem usar qualquer    força. Abrindo os dedos quando seu pulso é subitamente agarrado torna-o mais grosso, e dá à você uma vantagem. Para aqueles  aprendendo defesa pessoal é dito para abrirem seus dedos quando  agarrados porque o braço torna-se difícil de segurar.

O Ki é algo adquirido naturalmente através da correta prática  dos fundamentos básicos.

Se você se preocupar de mais com o Ki, você será incapaz de  mover-se. O Ki se manifestará por si mesmo naturalmente se você   estiver treinando corretamente. Uma vez que você tenha  desenvolvido o Ki, este fluirá livremente através de suas mãos  mesmo quando seus dedos estiverem relaxados.

O fundador considerava as técnicas de Ikkyo até Sankyo como    sendo movimentos preparatórios ao Aikido. No Ikkyo você treina   seu corpo; no Nikyo você Dobra seu pulso para dentro estimulando  e fortalecendo as juntas; no Sankyo você move seu pulso para  fora na direção oposta. Através da prática destas técnicas, você  desenvolve um corpo capaz de derrotar um inimigo com um único golpe. Estas técnicas básicas são sua preparação, e o   treinamento nas técnicas do Aikido começa através delas.

Outra parte essencial do treinamento dos fundamentos do Aikido é  o domínio da entrada e dos movimentos de giro. Se você decide  avançar, você deve avançar totalmente. Se você decide girar para   trás deve fazê-lo completamente. É difícil avançar depois de  desviar um golpe, a menos que você possua uma vantagem em força.   Portanto, gire sempre que necessário, como quando estiver em uma   situação onde você seja incapaz de bloquear.

A prática de técnicas girando é também necessária para se   aprender como mover-se livremente.

Recentemente, o Termo “Takemusu Aiki” tem sido usado bastante livremente, porém parece que poucas pessoas compreendem seu     significado. Takemusu Aiki refere-se à um estado onde técnicas   nascem infinitamente como resultado do estudo dos princípios do  Aikido.

No treinamento do Aikido – que inclui técnicas de mãos vazias,    Aiki Ken e Jô – é importante fazer claras distinções. Estas   incluem as distinções entre Ikkyo e Nikyo, Omote e Ura, técnicas  básicas e Ki no Nagare, e técnicas aplicadas (Oyowaza). Em uma  recente viagem à Itália, experimentei executar tantas técnicas  quanto podia. Concentrando-me apenas sobre as técnicas básicas, Ki no Nagare, variações e técnicas aplicadas, acabei por   realizar mais de 4 centenas de técnicas, e estou certo de que onúmero teria subido para mais de 6 centenas caso tivesse   incluído técnicas partindo da posição sentada, Hanmi Handachi    (Atacante em pé, defensor sentado), e técnicas de contra-ataque.

Não importa quão esplendidamente as pessoas escrevam sobre  Takemusu Aikido, eles devem ser capazes de executar estas  maravilhosas técnicas por si mesmos, se eles estão sendo   considerados como professores. Se vocês continuam à praticar    assiduamente de acordo com o método tradicional, alcançarão o    estágio onde serão capazes de executar um número infinito de    técnicas desde as básicas até as mais avançadas.

29
jul
10

Treino viril e o Aikijutsu

por Ted Howell.

Traduzido do Aikido Journal por Adriano Nobrega da Silva – Aizen Dojo- Brasilia

Vou compartilhar alguns pensamentos com vocês. Aqueles dentre vocês que tiveram a sorte de assistir ao Aiki Expo em Las Vegas realizado em maio passado (graças ao esforço de Stanley Pranin, um trabalho bem feito!) e viram as aulas de Sensei Katsuyuki Kondo, da principal linha de Daito-ryu Aikijutsu, já sabem o quanto essa arte é incrível e dinâmica.
Esta foi uma oportunidade de treinar diretamente com o único detentor vivo do menkyo kaiden, diretamente outorgado por Takemune Takeda (o Soke anterior de Daito-ryu Aikijujutsu).
Eu, continuamente, sou surpreendido pelo conhecimento e sinceridade de Sensei Kondo. Ele é ao mesmo tempo severo e compassivo e representa o que cada americano sonha encontrar num mestre. Fortemente aconselho a qualquer estudante sério de artes marciais japonesas a observar como um representante direto de Daito-ryu Aikijujutsu incorpora a essência do clássico e verdadeiro budo japonês.
Acredito que para, verdadeiramente, estudar aikido como uma arte, é importante pesquisar os aspectos histórico e técnico de seus ensinos.
Compreendo que O-Sensei criou seu próprio budo.
Mas a pergunta é: a partir de quê?
Não é mais um mistério que os aspectos técnicos do Aikido de O- Sensei foram inegavelmente o resultado de seu relacionamento e longa aprendizagem sob um dos mestres de artes marciais bem proeminentes de seu tempo, Sokaku Takeda.
Compreendo ser difícil de imaginar O-Sensei, o fundador de aikido, como um estudante.
Mas como todos grandes mestres marciais, ele criou o Aikido da própria visão do que lhe fora previamente ensinado.
Morihei Ueshiba era um artista marcial severo. Seu relacionamento e aprendizagem com Sokaku Takeda foi de cerca de vinte anos, estando bem documentado. Qualquer de vocês que assistiu ao Aiki Expo deve ter visto as fotografias fornecidas por Sensei Kondo que claramente mostram um certificado de Daito-ryu kyoju dairi (permissão para ensinar) pendurado na parede do Kobukan, dojo do Fundador. Sabe-se, tambem, que um número de estudantes de O-Sensei antes da II Guerra Mundial, receberam graduações em Daito-ryu e não em Aikido como o conhecemos hoje. Em sua juventude, Morihei Ueshiba foi considerado um professor severo, assim como era Takeda. Só pela vida inteira de treinamento diligente e severo pode a arte hoje conhecida como Aikido evoluir.
O Daito-ryu não é um “estilo duro” de Aikido. Ele é a antiga tradição secular que deu à luz ao Aikido e a numerosas outras artes.
Já ouvi shihans de Aikido dizerem que estudar Daito- ryu Aikijutsu é uma regressão! Ouso divergir e intrepidamente declaro que experimentei de primeira mão a surpreendente abordagem do aiki encontrada no Daito-ryu que poucos aikidokas tem demonstrado possuir.
Deve ser observado que O-Sensei simplificou muito dos modos antigos devido ao tempo que era necessário para dominá-los.
Mas sinto que algo foi perdido e acredito que essa simplificação excessiva criou seus próprios demônios.
Acredito que é uma tentativa verdadeiramente vergonhosa de muitos aikidokas pensarem que podem desenvolver um nível de proficiência em Aikido que o fundador só atingiu depois de uma vida inteira de treinamento contínuo.
O modo pelo qual o Aikido moderno é apresentado ao mundo é algo decepcionante.
Em maio deste ano, eu assisti ao Aiki Expo em Las Vegas e assisti demonstrações realizadas pelos maiores aikidokas do mundo. A natureza destas demonstrações variou das mais suaves às extremamente poderosas. E embora impressionante, a maioria do que observei envolvia uma falta de atitude marcial real. Os princípios básicos do Aikido (tais como movimento, timing, e kokyu) estavam lá, mas sinto que em algum lugar do caminho a natureza marcial do Aikido havia sido perdida.
Passei vinte anos treinando em artes marciais japonesas, chinesas e filipinas. Como um agente da polícia e instrutor de táticas defensivas, tive a oportunidade de experimentar muitos contatos físicos diretamente no dia a dia policial.
E sinto que muitos aikidokas enganam a si mesmos ao achar que um agressor descuidadamente atacará e se permitirá ser manipulado como uma boneca de trapo.
O Aikido foi fundado nos conceitos que promovem compaixão, paz, amor, e harmonia.
Mas escutem cuidadosamente às palavras de Sensei Mitsugi Saotome: “Quando os fortes falam de paz as pessoas escutam, mas quando os fracos falam de paz, ninguém dá ouvidos” ( livro Aikido e a Harmonia de Natureza).
Esta declaração, acredito, diz tudo.
Como podemos, como aikidokas, promover o Aikido como uma arte de paz e harmonia se ele é praticado de modo a apenas nos proporcionar um sentimento falso de segurança?
Durante anos, ouvi outros artistas marciais criticarem o Aikido por sua falta de severidade e natureza prática. Novamente, argumentarei que a arte não é a culpada, mas a forma branda em que normalmente é praticada e ensinada trouxe tais críticas. Compreendo que as pessoas treinem aikido por uma miríade de razões particulares.
Mas por favor, não diga que você treina uma arte marcial a menos que a treine como tal.
A arte foi projetada pelo fundador na tradição do guerreiro japonês e qualquer abordagem que lhe exclua a natureza marcial não é Aikido. Isto não significa que um aikidoka deve vestir uma armadura antes de treinamento, mas digo que a mente, corpo, e espírito são forjados por desafio e treinamento numa mentalidade marcial.
Em Budo, as palavras de Morihei Ueshiba estão cheias de imagens do guerreiro japonês e da cultura de guerreiro. O fundador escreveu, “Perceba que sua mente e corpo devem ser ocupados com a alma de um guerreiro, com uma sabedoria iluminada e uma cultura profunda”,
O fundador escreveu: “O surgimento de um ‘inimigo’ deve ser pensada como oportunidade para testar seu treinamento físico mental e ver se seu corpo realmente responde de acordo com os propósitos divinos”. Mais do que isso, o pensamento do fundador é extremamente claro quando afirma: “Sempre se imagine no campo de batalha sob o ataque feroz; nunca se esqueça deste elemento crucial de treinamento”.
Penso que o fundador estava certo de que teve uma visão de paz.
Mas esta visão veio da mente de um guerreiro.
Um guerreiro que claramente indicou que a iluminação e o forjar do espírito são resultado direto de treinamento severo e diligente.
Retirar a natureza marcial do treinamento também retira a agudeza requerida para forjar a espada do espírito!
Tenho treinado Daito-ryu Aikijujutsu desde de 1997 e recentemente fui solicitado (ou melhor comunicado) por Katsuyuki Kondo a prestar exame para Shodan em outubro deste ano.
Para mim, passar ou não, é secundário ao encarar os desafios que esta prova trará. Como um estudante sério de Aikido (atingi o posto de Yondan da Aikikai, em maio deste ano), eu sinceramente acredito que meu estudo em Daito-ryu foi inestimável a meu entendimento de aiki.
Acredito aquele Daito-ryu e Aikido são duas artes feitas do mesmo tecido e que um complementa o outro. Se voces pensam que Aikido e Daito-ryu são mundos à parte, peço que reavaliem suas posições.
Finalizo com algumas palavras do antigo Soke de Daito-ryu Aikijujutsu, Sensei Tokimune Takeda, quando indagado sobre a diferença entre Aikijujutsu e Aikido.
Ele declarou, “…tenho acompanhado técnicas de Aikido no Budokan do Japão mas vejo apenas demonstrações de técnicas macias. Elas não funcionariam numa situação de luta real. Os ukes auxiliam se jogando e fazendo lindas quedas. É como se praticassem apenas técnicas para se jogarem. Se seu uke cai numa queda linda, isso faz sua técnica parecer boa. Em nossa prática, nós não precisamos que nossos ukes auxiliem executando lindas quedas. Nós treinamos a projeção dos ukes. Se projetados adequadamente, eles não precisam ajudar na queda: eles simplesmente caem.” (Conversas com mestres de Daito-ryu).
Espero que essas considerações provoquem alguma reflexão.
Se algum dentre vocês está interessado em recuperar a natureza marcial do treinamento, por favor venha ao seminário e experimente de primeira mão o que estou tão desesperadamente tentando explicar.
Para qualquer esclarecimento adicional, por favor não hesite em contatar o Instituto Aiki de Artes Marciais.. Oferece instrução em aikido, Korindo, hanbojutsu, e Daito-ryu Aikijujutsu. Lembre-se de que nossos esforços não podem continuar sem o apoio forte desses sérios estudos de artes marciais japonesas tradicionais. Para aqueles dentre vocês que amam as tradições japonesas, mas não podem participar, a colaboração sob a forma de doações é sempre bem-vinda. O Instituto Aiki de Artes Marciais é uma organização sem fins lucrativos que conta com estas doações.
Sempre de vocês, no budo
Ted Howell- Dojo-cho, Pinelands Aikido, New Jersey.

06
jul
10

Os princípios do Kokyu ryoku – o poder da respiração

Por Gozo Shioda

 Eu disse anteriormente que o poder de foco e concentração determina a maneira pela qual usamos nossa força. Fundamentais para isto são o coração ou espírito, e o ritmo.

Todos estes fatores juntos formam o kokyu ryoku. Por coração, ou espírito, eu quero dizer a habilidade de entrar em um estado de esvaziamento. Este é o poder de concentrar nossos sentimentos, cujo impacto é muito forte. Nós freqüentemente pensamos em fazer alguma coisa desta ou daquela maneira, pois os seres humanos se encontram presos a planos – nós gostamos de planejar e de lembrar das coisas. No budô, é necessário eliminar planos e memórias ,e, ao contrário, nos colocarmos em um estado de esvaziamento. Neste estado todo medo desaparece, a, ansiedade é removida, e nós começamos a realmente perceber nossas habilidades, ganhando cada vez mais confiança em nós mesmos. Resumidamente, este é um estado mental muito sereno.

Neste estágio, nós podemos ler as intenções de nosso oponente, não com nossa cabeça, mas com nosso corpo. Nós podemos sentir como nosso oponente irá atacar. Em outras palavras, nós começamos a nos mover e sentir com o coração.

Outra faceta muito importante do kokyu ryoku é o ritmo. Nós devemos desenvolver o ritmo onkyu (lento e rápido). Por ritmo eu não quero dizer um movimento uniforme e monótono. Ao contrário, o ritmo de nossos movimentos deve se adaptar a uma dada situação. Essencialmente, é nossa respiração que controla nosso ritmo, inspirando ou expirando de acordo com a situação. Quando é necessário inspirar, nós inspiramos. Quando nós devemos expirar, nós expiramos. É isto que regula o ritmo de nossos movimentos. O ritmo é resultado da respiração. Quando o ritmo e a respiração se fundem, nós devemos adicionar shuchu ryoku (o poder da concentração). O verdadeiro kokyu ryoku é atingido quando estes três fatores se unem de maneira a formar uma coisa só. Quando isto acontece, nosso oponente perde a capacidade de resistir e torna-se completamente dependente de nós.

É essencial notar que nós não temos nenhuma intenção especial de fazer o oponente agir desta maneira – isto apenas acontece. Induzir o oponente a um tal estado onde ele se sente compelido a cooperar contrariando seus desejos, sem que ele se aperceba deste estado, é o princípio do kokyu ryoku.

Devemos dizer também que é preciso que nos tornemos inconscientes da existência do oponente para que sejamos capazes de atingir o kokyu ryoku.

O kokyu ryoku não é relacionado a qualquer conjunto de formas. Antigamente, Sensei Ueshiba nunca ensinava em detalhes. O que fosse que nós fizessemos, ele apenas dizia “está bom, está bom”. Desta forma, ele nos encorajava a evitarmos de sermos aprisionados pelas formas. O que é importante é nos colocarmos na melhor situação para nós mesmos. Mas mesmo que eu diga isto, eu sei que encontrar a melhor situação é algumas vezes algo muito difícil de ser feito.

O kokyuryoku se origina no esvaziamento. O kokyu ryoku não é algo que descobrimos através de algum treinamento ou exercício especial. A repetição diária das técnicas do Aikido forma a base para atingir-se o kokyu ryoku. Apenas após um treinamento uniforme, dia após dia, você poderá, com sorte, atingir o shingitai, quando o coração, a mente, o corpo e a técnica tornam-se uma coisa só, tornando o kokyu ryoku possível.

Ao invés de dizer que atingimos este estado, é melhor entender que um dia, sem sabermos quando, estaremos usando o kokyu ryoku. Isto pode acontecer inesperadamente, por exemplo, se estivermos diante de uma situação de vida ou morte. Em tal situação, a necessidade urgente de uma reação adequada pode servir como catalisador para o surgimento do kokyu ryoku. Repentinamente algo irá acontecer, e antes que tomemos consciência do que está acontecendo, o oponente estará no chão. Eu constantemente fico surpreso por não entender o que está acontecendo nestes momentos. Mesmo pensando cuidadosamente, eu não consigo definir claramente o que ocorre quando eu estou tomado pelo kokyu ryoku. Isto é o kokyu ryoku. Não é algo que possamos atingir quando quisermos. Na verdade, se estivermos pensando nisto, simplesmente não irá funcionar. Tudo deve ocorrer de forma natural. Qualquer idéia de atingir este estado nos prende a planos que serão de pouca ajuda para atingirmos o kokyu ryoku, e este é um fato que não é fácil de aceitarmos.

Mesmo que tenhamos atingido o kokyu ryoku uma vez, isto não significa que possamos atingi-lo novamente de maneira direta. De fato, tal idéia de repetição irá nos impedir de atingi-lo, e somente eliminando qualquer esforço consciente é que poderemos alcançá-lo novamente. Conforme acumulemos tempo de treinamento, isto nos levará a cruzar a fronteira.

Desta forma, um dia, nós nos tornaremos mestres do kokyu ryoku. É difícil descrever, mas neste exato momento surge uma sensação de êxtase, de imenso prazer, um conjunto de sensações que juntos formam uma experiência maravilhosa.

Esta experiência acontecerá de forma breve e inesperada, proporcionando uma inexplicada sensação de poder e conforto.

Eu acredito que não é possível experimentar este tipo de emoção através de atividades normais da nossa vida. Naquele momento eu posso dizer que perde-se o ego. Freqüentemente no dojo, durante as aulas especiais para alunos avançados, quando eu demonstro algo, eu me encontro em um estado de completo esvaziamento: nada existe naquele momento. Eu não possuo nenhuma intenção de resistir ao meu parceiro, na verdade eu perco a consciência de mim e do meu parceiro e nós nos tornamos um só.

É por isto que quando eu movo minha mão em uma direção, meu parceiro segue meu movimento. Se eu repentinamente mudar a direção, meu parceiro também mudará, todos se movem comigo. Como isto é possível? Eu não sei, mas se podemos atingir o verdadeiro esvaziamento, podemos fazer o impossível.

Isto é algo que eu não posso ensinar, mesmo se me perguntarem. Esta é uma sensação que devemos capturar para nós. Muitas pessoas estudam intensamente diversas técnicas de Aikido, e é muito triste que fiquem presas em um estado de pesquisa e não evoluam mais.

Muitas vezes acontece que por mais esforço que coloquemos em nossa pesquisa, não chegamos a uma conclusão. Nossos pensamentos permanecem turvos. Mesmo quando temos a intuição correta, nós perdemos nossa pureza quando adicionamos nosso pensamento.

O maior de todos os objetivos é aquele que vem de dentro de nós. Desta maneira é muito importante aprender a sentir com nossa pele e nosso corpo. “Torne-se um com a natureza”, diria Ueshiba Sensei, e apenas recentemente eu comecei a entender o que ele queria dizer sobre Deus, o Universo, e muitas outras coisas incompreensíveis. Minimamente, agora eu possuo uma noção do que ele dizia.

 

03
jun
10

Hybris ou subir uma escada cujo degrau está quebrado

Por Leonardo Galvão

A pedidos, resolví botar em palavras aquilo que as vezes converso com meus colegas (e amigos) aikidocas, nada muito diferente do que já nos é conhecido, mas desta vez, ilustrado por mitos universais, reconstruindo os sentidos literais para além das metáforas já descorridas sobre eles e dialogando com princípios como ukemis, atemis, tenkans e irimis. Resolví que, para falar com aikidocas, propensos a equilibrar a tenacidade do espadachin, a diplomacia inteligente de um nobre e a serenidade de um monge (sim, isto é um clichê), nada melhor que assuntar os riscos da velha hybris, que em tantos excelentes heróis fizera as mão fraquejarem e as pernas tremerem.
Hybris é um termo grego arcaico, caiu em desuso, cujo significado era excesso, ou desafio, ou crise provocada por mania de grandeza, fato muito comum nos nossos dias, por vezes até enaltecido. É fácil de entender o que é hybris, basta lembrar da história do piloto de avião já experiente, cansado de fazer operações irregulares com o seu aeroplano e que, um dia não diferente dos outros, é acometido com a fatalidade. O herói é outro conceito arcaico e que sempre volta numa repaginação segundo os moldes da época. Os herois já foram virtuosos, já trouxeram a luz à escuridão, iniciaram a nova ordem, destronaram reis e salvaram as princesas (ou os tesouros, tem o mesmo sentido) da caverna dos dragões e torres inalcançáveis. O herói pode ou não lutar com o mal, contudo o maniqueísmo é um conceito do final do período clássico. Heroismo é outra história.
Ok, ok! Concetremo-nos na questão da hybris, por enquanto. Não nos fatarão exemplos a serem discutidos, assim como não faltam heróis nas histórias mítico-religiosas universais. De sumério-babilônicos a japoneses, da antiguidade as nosssos dias, exímios guerreiros e homens espirituais, uns respeitados pelas proezas e outros temidos pela força de seu braço, sõ que, mais cedo ou mais tarde o forte e o valoroso sempre encontra um desafio intransponível e, este cheio de orgulho, se lance ao inevitável: a derradeira queda.
Se ainda não está claro, vou pincelar alguns exemplos sem me prender no mérito moral, ideológico e cultural de cada um, mas me concetrarei nesse fenômeno que faz o humano verdadeiramente Humano, falo da queda, a imagem do terceiro animal que anda com três patas no enígma da esfinge, vai além da questão da velhice.
Enfim chegado o momento de narrar as epopéias dos guerreiros, me permito ir longe, no berço da civilização, para comentar a primeira narrativa heróica que este Mundo já viu. Refiro-me ao mito de Gilgamesh, um Hércules ou um Sansão primitivo, arquétipo dos heróis brutos e impiedosos, um Wolverine da antiguidade (salvo milhões de aspectos nessa comparação). Suas estórias eram contadas oralmente desde os primeiros reinos sumérios, mas foi no período acádio que as rapsódias foram talhadas em tábuas de escrita cuneiforme, enfim, um mito de força, coragem e crueldade que durante séculos teve seu nome esquecido no tempo e na areia da terra e dos povos que seu nome ajudou a construir. Gilgamesh, rei cruel, conquistador, inquebrantável, cuja tirania fez com que seus súditos suplicassem aos deuses que o fizessem parar. Como toda narrativa arcaica, essa história é construída através das repetições cíclicas, como são cíclicos os dias e as noites, o  nascer, o crescer e o morrer e etc, logo imagine quanto fez Gilgamesh para ter seu nome escrito na boca do sapo dos rios mesopotâmicos.  Gilgamesh vencia inimigos mortais e até os imortais, armadilhas preparadas pelos deuses anunaki contra ele desferidas, ou seja, nada podia com Gilgamesh.
Para enfim destruir o rei-herói, os deuses anunaki entraram em consenso de que só outro Gilgamesh poderia vencer Gilgamesh, e assim, com o barro negro do Tigre e Eufrates, construiram Enkidu a imagem e semelhança de Gilgamesh. Deixando a análise psicológica do mito, ao encontrar alguem igual a ele em força e aparência, temido nas florestas ao redor de seu reino, este se viu espelhado e insuflado, somando forças com sua contraparte selvagem, motivo que o levou depois à ruina de sua imagem. Enkidu era aquilo de que Gilgamesh não queria confrontar: o limite ou finitude de sua existência. Com seu sósia, Gilgamesh descobriu o que é a morte, sim, pois Enkidu viera a falecer depois de um confronto com o dragão mandado pelos deuses. Gilgamesh, cheio de hybris, faz a jornada em busca da imortalidade, mas como podemos concluir, mãos vazias foram  sua paga. Alguns historiadores e mitólogos fazem paralelo de Gilgamesh com inúmeros reis locais da antiguidade mesopotâmica, sendo fonte de inspiração para Ninrode, o rei caçador do Antigo Testamento.
O segundo personagem heróico que cai em desgraça pelas garras da hybris é Aquiles. Nas epopéias  troianas, Aquiles e retratado por Homero como um herói cheio de adjetivos, dentre eles a invulnerabilidade e o fato de ser semi-deus (filho de Tétis, deusa do Mar e do rei Peleu, de Mermela), embora tivesse sua mãe esquecido de banhar seu calcanhar no rio estige, crucial para o seu derradeiro fim. É bom esclarecer que na escrita homérica não havia a necessidade da esplicação de que um ou outro personagem era ou deixava de ser alguma coisa, pois seus nomes acompanhavam os respectivos atributos, logo, se você ler o clássico você já percebe de cara quem é o que na história. Náo existia verbo de ligação, logo Aquiles herói, Paris covarde (e etc e tal).
Voltando ao herói homérico Aquiles, o que é dito desse semi-deus é que ele era um herói que lutava pelo exercito de Menelau e Agamenom, reis gregos (ou Helênico, isso mostra a importância desse mito na formação da cultura grega), contrapondo-se à Heitor, herói troiano, mortal, que lutava pelos seus. O estopin dessa contenda foi o rapto de Helena (a iluminada pelo Sol ou Helios) por Paris Alexandre, principe troiano e juiz no episódio do Pomo da Discórdia, pacto com a deusa do amor Afrodite pela proclaração da divindade mais bela do panteão helênico, para o descontentamento de Palas Athena e de Hera, coicidentemente patroa de Tétis, mãe de Aquiles coração de Helena, em troca do amor de Helena por ele.

No confronto entre Aquiles, o invulneravel e Heitor, o mortal e irmão de Paris, também herói, ambos lutavam por pontos de vista contrários: os respectivos interesses nacionais. Previsivelmente, Aquiles venceu Heitor, mas possuído de hybris, manchou sua vitória negando ao herói troiano um enterro digno de tal porte e coragem, esquartejando seu corpo e arrastando ao redor da muralha da cidade, para sofrimento e desespero de seus familiares.  Algo como um capitão Nascimento negando um belo enterro ao traficante Baiano.  A desgraça de Aquiles não foi a flecha envenenada em seu calcanhar, foi a hybris em campo de batalha ou refrear seus impulsos diante de uma batalha homem a homem.
O terceiro herói que me ocorre, enquanto escrevo, vem das fábulas arturianas, uma miscelânia de lendas celtas,  romanas, anglo-saxãs e normandas, de carater pagão e cristão que se perde na origem e no tempo.  Como os primeiros textos sobre as lendas arturianas e o reino fictício de Camelot (ou Cameloot, anagrama notaricon de Malkut, o reino em hebraico) foi escrito em francês, e um heroi de orgiem franco-normanda recebia todo o destaque nessa edição: o cavaleiro da carruagem, o cavaleiro Branco Lancelot du Lac. Seus feitos e proesas ultrapassavam a descrição, sendo considerado por Arthur seu maior e mais valoroso dos cavaleiros da távola redonda, cuja missão era relembrar os feitos arturianos e ir à busca do cálice sagrado, ou Graal. Cobiçado pelas mulheres do reino e estrategicamente requisitado por Arthur, Lancelot foi acometido de um feitiço pagão que o fizera tomar decisões intempestivas, dentre elas o casamento mal fadado com a princesa de Listenoise, reino de Pellinore, seu pai e conseguinte, encontros furtivos com a rainha Guinevere, esposa do Rei Arthur, a quem Lancelot jurou fidelidade.
Não foi a traição o motivo da queda do herói mais valoroso da távola redonda, mas a hybris, neste caso insuflado pelos feitiços de Morgana Le fey, a quem se atribuí a morte de Merlin, feiticeiro e conselheiro do Rei e de gerar Mordred, filho de sua estratagema para tirar o poder real de Arthur. Por feitiçaria ou por orgulho insuflado, a queda é a destruição da virtude. Uma curiosidade sobre a influëncia do mito de Lancelot: sua imagem foi perpetuada no baralho de cartas figurando o Valete de espadas, centrado  no mito da famosa Escalibur, segundo algumas interpretações correntes, enquanto outras o atribui ao naipe de ouro, associando-o à Camelot, o Reino.
Mas, enfim, o que tem haver a hybris com o aikido? Essa pergunta está presente na condução de tarefas simples que usamos em nossos exercícios e nem sempre nos damos conta dela. Não é necessário aprender japonês ou virar samurai para perceber que a disciplina que o aikido transmite vai muito além da melhoria postural e da ausência de força bruta nos movimentos. O tai sabaki (movimentação corporal, tradução livre), por exemplo, transmite-nos a necessidade de conduzir nossos corpos e mentes para uma direção ou mudarmos nossa postura frente a conflitos desnecessários. Não cabe, no espaço da academia, exercitar algo parecido ao “shin sabaki” (tradução livre para movimentação do espírito), mas podemos evitar um preconceito acerca daquilo que não nos é interessante ou familiar. Agir de forma bruta frente aos problemas relacionais cotidianos, ignorar o impacto das diferenças como transformador cultural e social e apelar para soluções violentas quando existe lugar para uma conversação é como estar imerso na hybris e não ter parâmetros outros senão agir pela sobrevivência (do ego). Contudo, em hybris a queda é iminente e nenhum rolamento ou técnica para tal (ukemi) lhe será válido, pois o chão não está aos seus pés, o ego  insuflado distorce sua imagem e a queda elimina qualquer possibilidade de aparo. Compartilhamos da mesma condição humana: a imperfeição. Aprimoremos nossas técnicas e incorporemos seus ensinamentos na sutileza do manuseio com ego. Isto é um convite e uma tarefa heróica.

Leonardo Galvão é artista e tecnólogo, praticante de aikido a cerca de 3 anos.
16
mai
10

O aikido em minha vida

Por Walter Amorim Sensei

Quando recebi a missão de escrever sobre como aikido mudou a minha vida, a minha maior preocupação não era de o que escrever, o tempo que arrumaria para fazê-lo. Pois tanta coisa tem ocorrido e minha agenda está tão cheia nesse ano que essa era minha preocupação.  Escrever sobre o aikido não é mais uma coisa difícil, pois está entranhado tão fortemente na minha vida que falar sobre ele é natural. Quem me conhece ou pede para falar sobre o aikido sabe. O problema talvez seja parar (risos)

Acho isso natural: Esse ano completo em março 20 anos de prática. Quando penso no aikido, o entusiasmo toma conta. Viro pregador. (Mais abaixo falo sobre esse problema). Então naturalmente posso falar. Esse entusiasmo deve ser o caminho de quem se dedica 20 anos a uma atividade desse tipo.

Em todos estes anos de experiência posso testemunhar muitas coisas certas sobre o aikido em minha vida.  O aikido tem a vantagem de poder ser dosado de acordo com as necessidades do praticante. Entretanto muita disciplina é necessária para avançarmos aos poucos, e dentro de nossos limites, pois também tem uma parte de cobrança física, à medida que nos aventuramos em exercícios mais avançados. Podemos encará-los ou não, é certo. Muitos praticantes começam em idade mais avançada, e em outras artes poderiam estar naquela idade já parando. No aikido existe essa vantagem, de poder iniciar em idades diversas, e ele nos remoçar por dentro. Mas é certo que, à medida que avançamos, vamos vendo nossos limites diminuírem como não esperávamos, mas temos que ter calma e evitar a precipitação.

Quando eu comecei aikido em 1990, eu estava procurando algo que não sabia ainda bem o que era. Que faltava em minhas aulas de karate.. O karate é maravilhoso e até hoje é uma excelente referencia. Mas eu não queria exatamente o lado competitivo, e apesar de, após a insistência de meu professor, ter me dado bem em um campeonato e nas competições internas no dojo, não era isso que procurava. Meu professor foi técnico da equipe carioca e posteriormente da brasileira de karate. Ele devia acreditar em meu potencial, e por isso, em retorno a sua dedicação para conosco, eu fui ao campeonato. Aí logo naquela época começaram a aparece aquele estilo wuku, voltado só para competição (marcação de pontos) e de efetividade e forma praticamente nenhuma. Foi a gota d’agua para desanimar. Com o lado competitivo. Não fui o único, pois posteriormente gerou uma cisão no shotokan, estilo que praticava. Mas o que me incomodava era que queria algo que, como disse, não sabia exatamente o que era. E que encontraria no aikido. O karate explorava um pouco do lado filosófico e espiritual, mas queria mais. E que pudesse a arte marcial moldar mais minhas reações frente ao mundo, ou seja, me preparar melhor para ele. Fiquei mas um tempo, mas por força de umas contusões dei uma meia parada de 1 ou 2 meses nas artes marciais. Aí surgiu por coincidência o aikido..

Já havia lido sobre ele e achei interessante, mas achei que esse tipo de arte não teria no Rio ( a grande Meca sempre foi São Paulo por causa  da migração oriental por lá)e em uma conversa com um amigo do trabalho naquele período de recesso estava falando que queria conhecer outras artes, talvez mudar um pouco. E ele me falou: “Por que não faz aikido? Estou fazendo um curso sobre budismo e o professor, que é monge budista, falou muito bem do aikido. Ele mesmo é faixa preta.” Disse que gostaria sim de conhecer, mas que ele deve ter aprendido em São Paulo e que aqui não tinha no Rio. Aí ele disse que tinha sim, tinha quase certeza. E que o professor dele sabia onde era. Sempre foi o problema doA ikido: Devido a ausência de competições a sua divulgação era pequena. Já estava desde 1963 no Rio e quase que desconhecido.  Hoje graças a Internet isso não ocorre. Eu mesmo acho que sou um grande divulgador. Voltando: Fui no curso de budismo pegar informações. O rapaz me recebeu muito bem e comecei na academia que me indicou.

Tinha visto e conhecia várias artes marciais e quando assisti não consegui entender muitas coisas do aikido. Comecei para conseguir pelo menos entender, pois como praticante de artes marciais por 5 anos no karate tinha perseverança.. Depois de 20 anos entendi tudo o que queria naquela época. Só que busquei outras coisas que quero assimilar mais e continuo mantendo aquele meu sentimento de que muito se tem a aprender.

O aikido, mas do que muitas artes possam propiciar no ocidente, te dá benefícios enormes. O que toda arte marcial, para ser arte marcial, deve dar. Justamente ela, que não tem competição.  De certa forma facilita.. Por não ter competição você fica atento e buscando todo o tempo os outros ganhos da arte marcial. Quando você tem competição ela ofusca um pouco os outros lados, os outros objetivos.  A idéia do  Aikido apresentar mais opções, do que lutar ou fugir também me atraiu. Eu particularmente gostei do controle da situação e do atacante. Não é preciso socar o nariz de alguém para controlá-lo.  Muitas vezes(quase sempre) gera mais conflito. O Aikido te dá à tranqüilidade de controlar a situação tanto mentalmente, como tecnicamente.  E mesmo se não se evitar o conflito e executando uma técnica pode-se evitar a agressão sem gerar mais conflito.

Mais ao longo deste tempo vi que o aikido exige perseverança pessoal e do grupo que resolve praticá-lo. Muitos são os obstáculos. Um deles é o local: Se você estiver em um local onde pode vivenciar a arte marcial em toda a sua completeza e ter tempo e orientação para desenvolver completamente, é ótimo. Entretanto, na nossa vida ocidental, muitas vezes a aula de uma arte marcial está encaixada em um pequeno local, no meio de uma grade de uma academia onde figuram diversas outras atividades. Comumente essas artes marciais ficam convivendo em meio a um barulho ensurdecedor de uma aula de “power lambo aerobic de verão” e somente pelo lado esportivo podem sobreviver. Nesses momento são lutas, ou esportes alternativos apenas, e atividades de academia. Deixam de ser arte marcial. Dificilmente estes locais podem moldar artistas marciais sem apoio. Sem outro local, outro campo onde possa se melhor explorado o caminho. Por isso o  aikido,  é o que tem mais dificuldade de se adaptar nesse locais. Possível é. Mas difícil. Arte marcial exige concentração e dedicação. Por isso os verdadeiros dojos são os melhores lugares. Ou as academias somente de arte marcial ou lutas. Espaços em academias são, para mim, transitórios ou auxiliares de outro local mais adequado. A não ser que tenham certo distanciamento próprio do caminho da arte marcial.

Outro obstáculo é termos adequadas referencias. Meus primeiros contatos, salvo exceções, foram excelentes referencias para conhecer e viver a arte em sua plenitude. Mas outros também serviram de exemplos do que não fazer. Principalmente como Sensei e difusor da arte.

Após o local e professor(es) adequados, acredito que a junção da dedicação, disciplina, vontade e estudo são os itens que irão sempre conduzir ao crescimento marcial.

Como beneficio o aikido me trouxe mais flexibilidade e determinação.  Assim como no aikido nada é rígido e enxergamos as portas por onde passar na execução das técnicas, o aikido vai te dando essa possibilidade de executar isso na vida, e continuar a caminhar sempre em sua evolução pessoal. Essa atitude me ajudou a responder aos argumentos com a minha mulher, os ataques do meu ex-chefe, e birras dos meus 3 anos de idade, dizendo: “Eu entendo que você está frustrados por … “(que estabelece a ligação)” … agora por favor ouvir o meu ponto de vista “.

No dojô freqüentemente falamos de experiências positivas em nosso dia-a-dia, em confrontos no trabalho, conflitos familiares e etc., sobre como a prática do Aikidô nos ajuda a encarar e vencer nossas dificuldades.

Quem não pratica Aikidô, ou outras linhas de Budô, tem duas dificuldades quando falamos sobre o aikido:  (1) podem interpretar como uma espécie de pregação e (2) só quem “sofre” e aprende com os treinos pode ter uma noção mais exata do que se trata aqui.  Praticantes de artes marciais, Ioga e outras atividades ligadas ao descobrimento pessoal, por exemplo, costumam passar por “pregadores”, em função do entusiasmo que transmitem ao discursar sobre o tema.  Acontece que a dificuldade, a exigência para se atingir ou chegar o mais próximo possível da perfeição, o cansaço da busca, a noção da linha fina que separa a vida e a morte, tudo o que é vivido no calor dos treinos ou na consciência da respiração de uma atividade como yoga não pode ser transmitido em um texto.

Minha própria experiência, entretanto, não restringe às artes marciais essa possibilidade de aguçar nossos sentidos.  Qualquer esporte praticado com dedicação pode também abrir essa possibilidade e mesmo outras práticas aparentemente não tão obvias deste esclarecimento (pelo menos para o pensamento ocidental), como jardinagem ou pintura. A diferença, para mim, está no foco que uma arte como o Aikidô tem justamente nesse tema.  Nas atividades e  esportes em geral essa certa “iluminação” se dá de forma mais sutil e como resultado secundário associado ainda ao comportamento do indivíduo (ninguém procura correr para atingir a iluminação, mas é impossível? Sempre que se olhar para dentro de si mesmo não será..). Nas artes marciais (naquelas que preservam e buscam ser artes marciais no sentido expresso) ela é uma conseqüência direta do que implicam os treinos e a verdadeira evolução na arte e não pode acontecer sem isso.

Além do aspecto do auto-conhecimento, há o do auto-controle diante das situações de estresse, pressão, medo.  Nos dois casos há uma ligação estreita, cabal, com a prática do Aikidô.

Isso é evidente para quem pratica, particularmente quando nos lembramos do controle da respiração durante o katá, acentuadamente no jiu waza  ou, dramaticamente, no Randori , diante de vários “oponentes” atacando de todas as direções, sob fortíssima pressão, exercitando a prática de não ser morto ou abatido.

Para quem duvida, aceite meu convite para experimentar!  O único detalhe é que a exigência de uma vida.  Alguns treinos ou mesmo apenas alguns meses, definitivamente não serão suficientes.  Venha preparado para um longo e muito agradável caminho, o “do”, de Aikidô.

14
jan
10

A arte marcial e seus beneficios: gerando modismos e ações oportunistas

Quem pratica artes marciais seja ela qual for(claro que com professores e grupos sérios) sabe dos inegáveis benefcicios que estas trazem para sua vida de uma forma global.

Principais benefícios:

- Fortalecimento muscular (sem ficar “marombado” e pesadão )
- Melhora da função cardiovascular
- Ganho de massa corporal
- Perda de calorias
- Tonificação dos músculos
- Aumento da coordenação motora
- Aumento da percepção geral.
Voltando um pouco os 5 primeiros são mais fáceis de se obter em muitas atividades.  Os 2 últimos são beneficios mas especificos das artes marciais, principalmente o último.  Se bem orientado em um arte marcial séria, e sendo conduzida por sensei ( ou sifu ou outro nome do instrutor responsável de acordo com a origem da arte) sério e capacitado também.
Os 5 primeiros pode-se até conseguir com as aulas de educação física aerobicas ou com uma daquelas “power marcial yoga dance aerobic turbo especial” que aparecem todos os anos para chamar público para as academias no verão. Os profissionais de ginástica são muito expertos… ninguém percebeu ainda essa estratégia…
A muito tempo o pessoal de educação física está de olho no público que frequenta ou procura as artes marciais e seus beneficios.  Que são indiscutivelmente amplos como falado anteriormente. Muita gente não se contenta com a repetibilidade das aulas de ginástica aerobica ou de musculação.
Por isso ele inventam essas “hiper high lambaero power strongs ginásticas”: Venham para a novidade do momento! O método revolucionário que vai resolver sua condição física! Vai perder 10.800 calorias por aula de 1 hora e ficar mais forte que o hulk em apenas 3 meses a tempo de desfilar seu corpo sarado na praia daqui a 3 meses! E no carnaval é claro!! E tudo isso se divertindo e sem tédio algum!
Tudo isso isso quer mascarar uma verdade absoluta na vida: Não existe nada na vida, nenhum resultado, sem dedicação e trabalho contínuo. Sem suor. Seja no trabalho, seja na ginástica, arte marcial ou qualquer coisa. Falo em minhas aulas que tem muita gente que gostaria que fossem as coisas iguais ao filme matrix: Quero aprender kung fu! O programador fazia um download para a tua cabeça do programa e voce virava um mestre. Infelizmente é um pouco mais complicado que isso..
Quando o pessoal tecnocrata ave de rapina da educação física(não generalizando existem pessoas mal intencionadas em tudo, inclusive nas artes marciais. E com certeza muitos profissionais de educação física sérios. Trabalho e trabalhei com muitos) criou o famigerado CONFEF que tinha os olhos compridos em arrecadação do pessoal de artes marciais e dos proprios profissionais de ed. física.
Mas acredito que as artes marciais sobreviverão bem a todos esses modismos e oportunismos. O maior desafio que se tem é chegar ao verdadeiro público das artes marciais, que tem um perfil muito característico. Ele é perseverante, não está preocupado em luta ou defesa pessoal somente, mas no beneficio global, tem comnsciencia dos beneficios diretos e indiretos da arte marcial (ou tem alguma vaga noção disso) e sabe que abraçar uma arte marcial é uma mudança de estilo de vida e não apenas a procura somente dos seus 7 beneficios citados acima. Estes são consequencias.
É claro que estou falando das atividades que se encaixam no conceito de arte marcial e não naquelas que considero como uma luta simples ou em um esporte como hoje são conduzidas.  Seja pela atual caracteristica da atividade, seja pelo ritmo que é conduzida em determinado local/grupo. Mas isso é assunto para outro texto….

03
dez
09

Demonstração técnica

Resolvi chamar o exame de demonstração técnica em minhas últimas mensagens a cerca de exames..  Por que? Muito simples:

No nosso sistema o Sensei(s) da banca não tem a preocupação de reprovar ou aprovar voces.  Se eu, como professor, indiquei dificilmente será reprovado o aluno. Pode acontecer claro, mas não é muito provavel. Nesse sentido então eu como instrutor sou mais o examinado, que os alunos. Mas ele também me conhece muito bem e sabe do nível técnico que tentamos manter e passar. Tanto que a partir do ano que vem os exames de voces ficarão mais a meu cargo.. E se eu conheco muito bem os alunos do dojo em tese, não seria necessário exame. Mas é. Não tanto pelo professor, não tanto pelo exame…

É a oportunidade de retribuir a todas as horas dedicadas a nosso desenvolvimento, a hora de demonstrar até onde polimos nossa técnica e demonstrá-la para toda a comunidade do dojo que está prestando atenção em você. O exame de faixa é o agradecimento do avaliado. Ao professor que o ensinou. Aos amigos do dojo que o ajudaram, e mesmo a sua familia que o apoiou, estando ou nao alguem da mesma por lá. E não esquecendo: É uma satisfação pessoal interna poder estar ali nesse momento.

Por isso tenho chamado o exame também de demonstração técnica.

05
abr
09

A progressão das técnicas do Aikido de básicas a avançadas

por George Ledyard  Published Online

Uma área de muita confusão no Aikido é a relação entre a prática avançada e os fundamentos básicos da técnica. A visão de Morihei Ueshiba andando imperturbável rodeado por atacantes que parecem incapazes de tocá-lo e que, ao contrário, voam em todas as direções com pouco ou nenhum contato físico, é a que a maioria dos praticantes de Aikido tem visto. O Interessante é que não existe um consenso geral ou ponto de sobre o que o O-Sensei, Fundador do Aikido, estava realmente fazendo quando ele apresentava o seu Aikido ao público. Entre tantos estilos diferentes de Aikido e entre um grupo ainda maior de instrutores, muitos dos quais tendo treinado com o próprio Fundador, quase não existe um consenso sobre quando e como a arte progride de suas bases, que diferem pouco de estilo para estilo ou instrutor para instrutor, para o nível “Avançado”. Para alguns professores Aikido “avançado” se parece muito mais com as suas próprias bases fundamentais, mais simples e suave, muito menos esforço, fluindo como a corrente de um rio de técnica em técnica. Aqui, avançado parece simplesmente indicar o nível de não–esforço e relaxamento alcançado por um praticante ao lidar com ataques sinceros iniciados por um parceiro / oponente. Mas parece que não há nenhuma tentativa por parte desses professores de “perder a forma” como o Fundador claramente demonstrava. Outros professores parecem ter tomado Morihei Ueshiba aos oitenta para representar a quinta essência do Aikido, e esses professores têm tentado duplicar a ausência de forma exibida pelo Fundador no fim de sua carreira. Esses professores dão mais importância em serem sensitivos a cada mudança de energia, física ou psíquica, do parceiro do que em desenvolver uma técnica forte e boa. Alguns, de fato, menosprezam o poder do treino físico indo de encontro à intenção do Fundador. O problema com ambas as abordagens é que o Aikido para O-Sensei era um processo que continuou até o momento de sua morte. Aqueles que tentam capturar um determinado momento na vida do Fundador no qual ele estava praticando um Aikido “ortodoxo”, inevitavelmente falham em compreender as fundações em que estavam apoiadas o Aikido daquele período particular, o que, para ele, representou décadas de treinos constantes. Eles também escolheram ignorar tudo o que o Fundador desenvolveu depois daquele ponto no tempo. Fazer isso parece ser mais fruto de uma preferência pessoal do que algo que esteja embasado em uma justificativa qualquer. Aqueles que desejam pular diretamente para o final da carreira do Fundador e fazer de suas últimas técnicas avançadas o modelo de sua própria prática, estão tentando entender uma arte sem entender as fundações sobre a qual o edifício repousa. Alguns professores sustentam que nós não devemos re-inventar a roda, uma vez que o Fundador fez a maior parte desse trabalho para nós, então não deveríamos nos preocupar. Esse argumento poderia ter alguma solidez se houvesse algum exemplo na realidade. No entanto, eu nunca encontrei um único exemplo no qual alguém tenha alcançado um nível assombroso em sua técnica sem ter tido experiência em treinos físicos bastante duros. Tentativas de transmitir o seu entendimento aos seus alunos sem fazer com que eles passem pelo mesmo processo, em minha própria experiência, falharam completamente. A razão para isso parece bastante óbvia em cada enfoque, toda a epifânia que leva a um salto qualitativo no nível do treino parece estar baseada na firme fundação do entendimento de um conhecimento anterior. Eu mesmo tenho visto alunos pulando estágios e indo direto aos níveis mais altos do treinamento sem passarem pelos necessários passos anteriores de um processo mais físico e mecânico. Sem exceção, as tentativas que eu tenho encontrado de provocar esse salto, têm resultado em estudantes cujos movimentos são ocos, faltando a intenção necessária para executar a técnica nesse nível. Então o que eu gostaria de fazer é enfatizar o que eu vejo (no estágio atual de meu próprio treino) como a progressão natural da técnica, partindo das bases, como dependente de um entendimento sólido da mecânica de como o corpo trabalha, de como utilizar o seu movimento para desenvolver força e como unir esse poder com o outro sem conflito. Aquele que avançou depende muito mais do aiki como interação do físico com o energético, o lugar no qual o corpo é afetado pela mente e a técnica se torna menos e menos física e mais uma questão do princípio em ação. Isso deveria possibilitar ao estudante de Aikido ver a relação entre os diferentes passos na progressão do básico ao avançado. Esta relação está presente igualmente nas técnicas de mão vazias e naquelas com armas. O primeiro nível do treinamento é revelado via técnica estática. Este nível da técnica é designado para desenvolver uma compreensão da estrutura. Como alguém pode perceber o seu trabalho corporal e o trabalho corporal do parceiro? Para passar deste nível uma pessoa tem que compreender as mecânicas da arte, o componente do jiu-jutsu, por assim dizer. A pessoa precisa aprender a relaxar e entender a “geometria” básica da técnica. Nesse treino nós encorajamos o parceiro a ser o mais poderoso o possível, de forma que possamos receber o retorno no que concerne ao nosso “entendimento” tal como expresso por nossa técnica. O próximo passo na progressão (que, geralmente, é realizado simultaneamente com o primeiro estágio) é a técnica em movimento. Ao mesmo tempo em que exige uma atenção contínua nas habilidades desenvolvidas via treino estático, o treino com movimento começa a ensinar como a manipulação do espaço (ma-ai) e do tempo (de-ai) pode ser utilizada para neutralizar o poder do atacante. O “centro” forte, desenvolvido através do treino estático agora aparece no movimento, onde quer que o praticante esteja, mesmo ao se mover, aquele sentimento do centro é mantido. Nesse estágio o nage permite ao uke iniciar um ataque e ele recebe o ataque utilizando o seu movimento para se unir ao ataque. A energia do ataque é, então, redireciona para dentro da estrutura do uke em técnicas de apreensão ou dentro dos pontos de equilíbrio do uke para uma técnica de projeção. É nesse estágio do treinamento que o estudante começa a trabalhar o conceito de como “conduzir” a energia ou a atenção do parceiro. Conduzir o Ki do oponente é um a das pedras fundamentais da técnica do Aikido. Do ponto de vista marcial o nível anterior de treinamento é limitado no sentido que concede um poder considerável ao atacante ao permiti-lo decidir qual e quando um ataque se dará. Dado o fato de que todas as pessoas têm um certo tempo de reação entre perceberem alguma coisa e poderem agir ao que viram (cerca de meio segundo para a maior parte das pessoas), permitir ao atacante ter a iniciativa é dar a ele uma vantagem significativa. Isto é um problema, já que significa que, a) do início da técnica o nage está sendo re-ativo ao uke e, b) se o atacante escolhe utilizar menos do que o completo comprometimento na técnica tal como afrouxar, o uke pode fazer com que o nage se mova do modo que ele quiser e, de repente, mudar o ataque, fazendo, assim, com que a tentativa do nage de realizar a técnica seja falha. Então o próximo nível da técnica muda quem tem a iniciativa. Agora o nage não ceita simplesmente o que é imposto pelo uke. Ele utiliza o seu próprio movimento para traçar uma reação do ataque no momento de escolha do nage. Se o nage fecha o ma-ai (espaço) com uke, ele irá atingir um ponto no qual o uke PRECISA estar comprometido com o seu ataque ou retornar. A falha em realizar uma dessas coisas irá resultar em ele ficar aberto a um ataque do nage. Uma vez que é o nage quem determina quando irá cruzar o ponto de ma-ai e chegar a “distância crítica” ele não tem “tempo de reação”, porque ele sabe quando o uke está comprometido. Isto é muito importante no desenvolvimento de uma técnica marcial efetiva e precisa ser pesquisado com cuidado. A diferença entre este estágio e o último é que no último estágio o nage permitiu ao uke iniciar e agora ele dirige a “atenção” do uke segundo o seu próprio movimento. Nesse nível da técnica ele tem o controle do “tempo”, manipulando o “espaço”, o que faz com que considerações como “rápido e devagar” sejam irrelevantes para a técnica. O praticante começa a operar fora da zona temporal e ele começa a controlar as questões relativas ao tempo e ao espaço. O que tem acontecido até agora no desenvolvimento desses “estágios” é que a técnica se torna progressivamente menos física à medida que os princípios de tempo e espaço são utilizados para moldar o movimento do atacante. No próximo nível da técnica o nage não apenas inicia a ação a fim de conduzir os movimento do uke, mas utiliza a energia de sua ação a fim de conduzir a resposta que o uke lhe dá. Nesse estágio da prática o atacante termina por ficar quase completamente sob a ação do nage. O nage está controlando as suas ações mesmo antes delas começarem a ocorrer. A técnica parece ser mais suave e mais energética do que poderosa e física embora, neste nível, seja sempre possível realizar uma técnica bastante poderosa se assim se desejar. Isto é realizado através da manifestação de princípios como atemi waza ao invés de técnicas de projeção e aprisionamento. Uma técnica marcial bem explosiva e efetiva pode ser gerada desta forma. Na prática, claro, atemi waza não é utilizado para infligir dano ou gerar desconforto físico. Ao contrário, isto é um modo de utilizar uma energia explosiva em potencial para gerar uma resposta do uke. Isso pode servir para distraí-lo e dissipar a sua energia da área do corpo na qual a técnica está sendo realizada (como numa técnica de apreensão) ou pode ser utilizado para tirar a sua atenção realizando uma entrada possível, sem ser atingido. Em outras palavras, neste nível da técnica o atemi diz respeito a dirigir a atenção ou a energia do parceiro em direção ao que ele deseja e para longe do que ele não deseja.Quando este nível de técnica é atingido, não existe quase contato físico que preceda o “lançamento”. Uma técnica que havia sido, em sua forma básica, uma técnica que havia alguma forma de pegada, estaria ajustada ao tempo de tal maneira que não há maneira de se agarrar. Pode ou não haver uma intenção de se agarrar, mas a técnica genuína foi elevada a um estágio de energia no qual o ataque do parceiro é desviado pelo nage, então, conduzindo a atenção do atacante e produzindo movimento através da exposição das aberturas (suki) do oponente, o nage ganha controle sobre o centro do atacante sem manipula-lo fisicamente, mas ao contrário, criando uma situação na qual o atacante se move como deseja. Um atemi, que é colocado no espaço que o uke deseja ocupar para terminar o seu ataque irá resultar na perda de seu próprio equilíbrio a fim de escapar de ser atingido. Quando esse nível de técnica é alcançado, a técnica é operada via princípio puro ao invés dos fatores físicos que produziram a técnica nos níveis mais básicos. Uma técnica como ryote-tori tenchi-nage, exemplifica o princípio da “dissipação” da energia (física ou mental) do parceiro. Quando a técnica finalmente atinge a sua expressão energética ela não precisa mais do ataque em ryote-tori. De fato o tenchi-nage pode ser realizado, por exemplo, contra um chute frontal. O tenchi existe na forma como a atenção do atacante é dissipada de seu alvo e direcionada para fora, permitindo ao nage entrar sem ser atingido. Mas esta manifestação do “princípio da dissipação” não pode ser conseguida sem um minucioso entendimento do princípio básico de execução da técnica. Isso não pode ser ignorado. Quando a técnica é apresentada aos estudantes desta maneira, com variações progredindo das versões elementares, físicas e estáticas para as versões avançadas, energéticas e fluídas, isso pode ajudar o estudante a compreender tanto de onde uma técnica surge quanto para onde ela deve ir em seu desenvolvimento. Isto pode servir para desmistificar a energia envolvida nas técnicas avançadas uma vez que os princípios podem ser decodificados e ensinados, mas isso também mostra claramente quais os elementos que são essenciais em proporcionar os fundamentos de uma técnica antes que o movimento em direção a uma versão mais sofisticada possa ser realizado. Cada nível compreende um entendimento do nível anterior. Utilizando este tipo de metodologia talvez haja mais estudantes que atinjam os níveis mais altos desta arte criada para nós pelo Fundador do Aikido.

Novembro 2004




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