O emocionante artigo a seguir foi escrito por Yamada Sensei e enviado a seus alunos .
O emocionante artigo a seguir foi escrito por Yamada Sensei e enviado a seus alunos .





Artigo de Nobuyoshi TAMURA Sensei, 1979. Publicado originalmente na Revista da Federação Europeia de Aikido com o título “O Aikido e os Aikidos”
O Mestre Nobuyoshi TAMURA foi delegado da Aikikai de Tóquio para a Europa. Nasceu em 1933 em Osaka, em 1953 entra no AIKIKAI HOMBU DOJO como uchideshi do fundador Morihei Ueshiba. Em 1964 é enviado para França pelo fundador onde permaneceu até hoje. Em 1999 é condecorado pelo governo Francês com a ordem “Chevalier de l’ordre National du mérite”. Faleceu em 2010.
Hoje em dia qualquer de nós pode ver no supermercado, no restaurante ou sobre uma tumba, e até nas igrejas, flores artificiais. Estas flores são fabricadas tão delicadamente que às vezes podemos confundi-las com as verdadeiras flores; são práticas, não necessitam nem de sol nem de água, são eternas e por muito tempo uma alegria para os olhos.
No entanto não suporto tais flores perto de mim. Não têm verdadeira vida. São todas parecidas, nenhuma difere da outra, nenhum botão com vida, sem rebentos, sem perfume e, quando chega ao Outono, não há sementes, nem folhas amarelas ou avermelhadas. Nem sequer caiem. É a imobilidade, e apesar da beleza das cores e das formas, a impressão que se experimenta é a de um mundo morto.
Em contrapartida, acerca das flores verdadeiras, frágeis, efémeras, mutáveis, nunca estáveis, sentimos o fluxo de uma vida eterna. Flores desaparecidas, folhas caídas no solo húmido do Outono, o silêncio imóvel do Inverno, sabemos que há aí uma promessa de vida, o retorno da Primavera.
As flores artificiais, tão belas, tão parecidas com as verdadeiras, que requereram para o seu fabrico tanta imaginação e talento, não serão nunca flores verdadeiras. Essas flores levam consigo tristeza eterna, o pesar de uma vida que não conhecemos, que não soubemos dar-lhes.
O Mestre Ueshiba faleceu em 1969, faz dez anos. Mas a sua imagem está sempre presente diante dos meus olhos. Vejo-o, sorridente, indo e vindo, ensinando.
Dez anos é pouco tempo, mas o que é que vemos? O que é que ouvimos? Quantos dizem: “O meu aikido é o verdadeiro Aikido”, “o meu Aikido é a evolução moderna do Aikido”, “eu ensino Aikido”. Surgem escolas… de onde vêm?
Confesso que não compreendo, este fenómeno não me entra na cabeça.
Mas o Aikido, todos os Aikidos, provêm de uma semente plantada por O’Sensei. Se são tão diferentes é, sem dúvida, porque nem todos cresceram na mesma terra, porque não receberam o mesmo sol, isso é o que explicaria a sua diferente cor, o seu aroma mais ou menos intenso, mas de qualquer modo são todos Aikido nascidos da mesma espécie, da mesma família.
No entanto, às vezes, chamamos Aikido a uma flor que não surgiu da mesma família de flores. Por exemplo, em França e Bélgica chama-se “achicoria” a duas plantas totalmente diferentes. Isto é aceitável e explica-se pelo facto dos homens poderem confundir as palavras e dar, assim, uma falsa denominação sem graves consequências.
Mas se alguém diz que uma túlipa artificial é da mesma família que uma túlipa verdadeira e que por isso devemos catalogá-la ao lado desta, isso é inaceitável.
Um falsificador que imita o quadro de um grande mestre comete uma falta que, no entanto, não é igual à de quem quer fazer crer que a flor artificial é uma flor verdadeira.
Na flor real há vida, na outra, pelo contrário não há vida.
Este tipo de falsificação é um ataque à divindade, uma blasfémia.
Aquele que pretende aprender Aikido por livros e filmes, ou ainda pior, a partir da sua imaginação que o leva a inventar movimentos, e que de seguida recebe dinheiro pelo seu ensino, este deveria saber que no seu Aikido não há rasto da herança de O’sensei, não existe a vida que o Mestre transmitiu. É um Aikido artificial. Acho que receber dinheiro e enganar as pessoas deste modo, é um crime.

Entrevista com Christian Tissier
Você considera o trabalho de armas parte integrante da prática do Aikido?
Fundamentalmente, não. Mas eu vou desenvolver o meu ponto de vista.
A organização Aikikai, como você sabe, não tem curso de armas e ponto final. Tem alguns bokkens se alguém quiser fazer alguns suburis, mas não é bom fazer muito e, sobretudo evitar fazê-lo em duplas.
Mas eu sempre fui muito interessado pelo espírito do ken, deste jeito de ir direto à ação especifica do kenjutsu, não circular. Eu tive a sorte de ser formado em kenjutsu pelo Inaba sensei no Shiseikan.
Mas eu não considero, que seja indispensável treinar armas, para treinar Aikido. É interessante usar o treino de armas, como um suporte lúdico, que desenvolve outra distância. Mas podemos dizer também que o boxe ou modalidades que usam chute e socos, são suportes que podem trazer algo que interesse neste sentido, mas não é a essência do Aikido.
Eu ensino sempre o ken nos seminários de uma semana por que interessa a muitas pessoas, mas é um ‘plus’, não é o essencial. Eu não sou contra aqueles que desenvolvem sistemas de armas, mas, Aikido é Aikido. As armas podem fazer parte, mas podemos ter alguém que nunca tenha treinado armas e que pratica um Aikido correto com as mesmas.
Entrevista com Tamura Sensei Aikido e buki-waza
A prática de armas é indispensável no Aikido?
O Aikido nasceu da prática de armas, o tai-jutsu e os buki-waza são apenas um. Se alguém se gradua no trabalho das mãos vazias, ele utilizará as armas corretamente também. E vice-versa. Mas é muito raro isto nos acontecer nos dias de hoje. Da mesma forma que algumas pessoas praticam bem na posição de pé, mas não o fazem com a mesma qualidade no suwari wasa, algumas pessoas parecem praticar bem com as mãos vazias mas revelam seus limites com uma espada na mão.
Sobre o mesmo assunto um trecho de uma entrevista com Shimizu sensei:
É importante o trabalho de armas no Aikido?
Eu não creio que seja. Hoje existe cada vez mais professores que ensinam o Ken, mas no tempo de O sensei, ele ficava zangado se nós praticávamos muito com a espada. Ele dizia:” O Aikido é o taijutsu, então estudem profundamente o taijutsu”. No treinamento é bom variar as situações de ataques, e neste sentido é útil trabalhar contra os ataques de Ken, Jô e Tanto. Mas o trabalho de espada contra espada não me parece necessário. As pessoas que querem praticar isso podem praticar o Kendo.
Hoje as pessoas falam de Aikiken, Aikijo, e aí reina uma grande confusão sobre o que é Aikido. A essência do Aikido é o taijutsu, é necessário manter este espírito. Mas podemos utilizar a espada para aprender o riai* e os os princípios.
Fisicamente e é mais confortável praticar o bokken ou a espada. Não se finaliza, nem projeta nem imobiliza. (Risadas)
*Riai é a harmonia dos princípios. Riai refere-se aos princípios mútuos dos movimentos encontrados no treinamento tradicional de Aikido. O movimento do corpo, dos quadris, das mãos e o kamae estão conectadas um ao outro.
Uma deficiência comum no treinamento de hoje é a falta da prática dos Atemi, ou ataques em pontos vitais. Os Atemi são usados para enfraquecer ou neutralizar um ataque do oponente para criar-se assim uma situação favorável na qual pode-se executar uma técnica. Em muitas situações é virtualmente impossível desequilibrar um oponente forte, suficientemente para aplicar uma técnica sem recorrer-se ao Atemi. Aqueles que afirmam que o uso de tais ataques (executados com o intuito de tirar atenção do oponente do objetivo principal da técnica) é muito violento ou “não é Aikido” ignoram os conceitos do Aikido ensinados pelo fundador que dava grande ênfase sobre a necessidade de tais movimentos durante o treinamento. Os Atemi são uma parte essencial das técnicas básicas e também avançadas, e não devem ser omitidos de sua prática.
O fundador sempre iniciava as sessões práticas com os exercícios de Tai no Henko e Morote Tori Kokyo Ho. Ele terminava cada prática com o treinamento de Suwari Waza Kokyu Ho. Os exercícios de Tai no Henko constituem a base dos movimentos Ura, ou movimentos girando, e os dois Kokyu Ho, ou métodos de respirar, ensinam como respirar corretamente, a coordenação apropriada do corpo e como estender o Ki intensamente.
No treinamento do Aikido nós abrimos nossos dedos para estender o Ki através dos braços.
Abrir os dedos é uma forma de aprender as técnicas básicas, um treinamento que permitirá a você executá-las sem usar qualquer força. Abrindo os dedos quando seu pulso é subitamente agarrado torna-o mais grosso, e dá à você uma vantagem. Para aqueles aprendendo defesa pessoal é dito para abrirem seus dedos quando agarrados porque o braço torna-se difícil de segurar.
O Ki é algo adquirido naturalmente através da correta prática dos fundamentos básicos.
Se você se preocupar de mais com o Ki, você será incapaz de mover-se. O Ki se manifestará por si mesmo naturalmente se você estiver treinando corretamente. Uma vez que você tenha desenvolvido o Ki, este fluirá livremente através de suas mãos mesmo quando seus dedos estiverem relaxados.
O fundador considerava as técnicas de Ikkyo até Sankyo como sendo movimentos preparatórios ao Aikido. No Ikkyo você treina seu corpo; no Nikyo você Dobra seu pulso para dentro estimulando e fortalecendo as juntas; no Sankyo você move seu pulso para fora na direção oposta. Através da prática destas técnicas, você desenvolve um corpo capaz de derrotar um inimigo com um único golpe. Estas técnicas básicas são sua preparação, e o treinamento nas técnicas do Aikido começa através delas.
Outra parte essencial do treinamento dos fundamentos do Aikido é o domínio da entrada e dos movimentos de giro. Se você decide avançar, você deve avançar totalmente. Se você decide girar para trás deve fazê-lo completamente. É difícil avançar depois de desviar um golpe, a menos que você possua uma vantagem em força. Portanto, gire sempre que necessário, como quando estiver em uma situação onde você seja incapaz de bloquear.
A prática de técnicas girando é também necessária para se aprender como mover-se livremente.
Recentemente, o Termo “Takemusu Aiki” tem sido usado bastante livremente, porém parece que poucas pessoas compreendem seu significado. Takemusu Aiki refere-se à um estado onde técnicas nascem infinitamente como resultado do estudo dos princípios do Aikido.
No treinamento do Aikido – que inclui técnicas de mãos vazias, Aiki Ken e Jô – é importante fazer claras distinções. Estas incluem as distinções entre Ikkyo e Nikyo, Omote e Ura, técnicas básicas e Ki no Nagare, e técnicas aplicadas (Oyowaza). Em uma recente viagem à Itália, experimentei executar tantas técnicas quanto podia. Concentrando-me apenas sobre as técnicas básicas, Ki no Nagare, variações e técnicas aplicadas, acabei por realizar mais de 4 centenas de técnicas, e estou certo de que onúmero teria subido para mais de 6 centenas caso tivesse incluído técnicas partindo da posição sentada, Hanmi Handachi (Atacante em pé, defensor sentado), e técnicas de contra-ataque.
Não importa quão esplendidamente as pessoas escrevam sobre Takemusu Aikido, eles devem ser capazes de executar estas maravilhosas técnicas por si mesmos, se eles estão sendo considerados como professores. Se vocês continuam à praticar assiduamente de acordo com o método tradicional, alcançarão o estágio onde serão capazes de executar um número infinito de técnicas desde as básicas até as mais avançadas.
A mente e a filosofia de Matsuo Haruna
Como artista marcial (pelo menos um jovem artista marcial), como pessoa que acredita e pratica o Budo, acredito ser muito importante o estudo da história e das origens da arte escolhida, e também das outras artes. Para mim, conhecer o máximo possível sobre quem, onde, por que e como em relação às raízes de uma arte marcial é crucial para a completa compreensão dela, o que eu creio que dá à prática um significado mais profundo e completo. O estudo da história das artes marciais permite que se pegue o que é antigo e o aplique ao que é novo; compreender o antigo – às vezes ancestral – princípio de nosso estudo nos dá a habilidade de encontrar uma razão para nosso treino de hoje. A sociedade, a época e as armas podem variar, mas os princípios do antigo permanecem os mesmos, como as raízes de uma árvore, afetando e influenciando a humanidade em um nível abaixo da superfície.
Acredito que o estudo de sua história também é uma forma de homenagem e respeito às pessoas que são os pioneiros destas artes. Todas as formas e estilos de combate começaram com estes indivíduos colocando totalmente suas energias criativas e suas vidas no desenvolvimento de uma forma física, mental, e espiritual de autodefesa. Mesmo que nenhum verdadeiro artista marcial ou sensei aceite esta forma de “adoração”, é a estes homens e mulheres que devemos nossas práticas.
Dito isso, decidi devotar este artigo a outro indivíduo que, do meu ponto de vista, serviu como inspiração e fonte de direcionamento para muitos Iaidoka. O que eu descobri sobre este homem é o que eu acho que deve ser compartilhado. Suas realizações e sua atitude em relação a keiko é algo que todos podemos usar como aprendizado. Este homem é Matsuo Haruna Sensei.
Uma das coisas mais impressionantes que descobri sobre Haruna sensei é que ele começou a treinar já com idade avançada. Ele nasceu em 1925, mas ó começou a treinar iaido em 1972 – com 46 anos de idade. É uma idade em que as pessoas acham que são muito velhas para começarem qualquer coisa, quanto mais começar a treinar uma arte marcial! Mas Haruna sensei fez isso, e obteve grandes progressos no curto período entre 1972 e seu falecimento em 2002. Ele recebeu a graduação de Hachidan, e o titulo de Hanshi, no Muso Jikiden Eishin Ryu.
Ele foi o professor exigente e diretor do Musashi Dojo de Ohara, que recebeu o nome do lendário espadachim Miyamoto Musashi. Ele participou de cerca de 250 competições locais e nacionais e de demonstrações no Japão; perdeu 12 vezes, ficou em 3º lugar oito vezes e em 2º lugar 28 vezes, e uma dessas vezes foi em sua primeira competição nacional em 1978, em que ele ficou em segundo lugar. Ele recebeu o prêmio de Melhor Espírito de Luta 45 vezes, e o prêmio Espírito de Luta Especial (que é acima do “Melhor”) 15 vezes. Nas demais vezes, ele venceu.
Apesar de seu impressionante registro de competições, Haruna sensei não treinava para shiai. Para ele, shiai era apenas outra forma de treinamento. Ele acreditava que não importava o que fosse, shiai – demonstração, competição, exame – ou keiko (prática), sua atitude deveria ser exatamente a mesma – e é essa atitude é o que você deve treinar, como se sua vida dependesse disso!! Haruna sensei acreditava que a chave para o desenvolvimento de seu treinamento é levá-lo a sério. Sem essa atitude, sua prática sofre, e sua habilidade também. É a concentração, e um profundo foco nos fundamentos, o que permite o avanço de uma pessoa.
Apesar de eu nunca ter tido a oportunidade de estudar ou treinar com Haruna sensei, agradeço por sua vida, sua influência e sua contribuição para o iaido e os iaidoka. Isso reforçou minha compreensão, e tenho certeza que de outras pessoas, das artes marciais.
Haruna Matsuo Sensei, shitsurei shimasu!!!
Tradução – Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
por Ted Howell.
Traduzido do Aikido Journal por Adriano Nobrega da Silva – Aizen Dojo- Brasilia
Vou compartilhar alguns pensamentos com vocês. Aqueles dentre vocês que tiveram a sorte de assistir ao Aiki Expo em Las Vegas realizado em maio passado (graças ao esforço de Stanley Pranin, um trabalho bem feito!) e viram as aulas de Sensei Katsuyuki Kondo, da principal linha de Daito-ryu Aikijutsu, já sabem o quanto essa arte é incrível e dinâmica.
Esta foi uma oportunidade de treinar diretamente com o único detentor vivo do menkyo kaiden, diretamente outorgado por Takemune Takeda (o Soke anterior de Daito-ryu Aikijujutsu).
Eu, continuamente, sou surpreendido pelo conhecimento e sinceridade de Sensei Kondo. Ele é ao mesmo tempo severo e compassivo e representa o que cada americano sonha encontrar num mestre. Fortemente aconselho a qualquer estudante sério de artes marciais japonesas a observar como um representante direto de Daito-ryu Aikijujutsu incorpora a essência do clássico e verdadeiro budo japonês.
Acredito que para, verdadeiramente, estudar aikido como uma arte, é importante pesquisar os aspectos histórico e técnico de seus ensinos.
Compreendo que O-Sensei criou seu próprio budo.
Mas a pergunta é: a partir de quê?
Não é mais um mistério que os aspectos técnicos do Aikido de O- Sensei foram inegavelmente o resultado de seu relacionamento e longa aprendizagem sob um dos mestres de artes marciais bem proeminentes de seu tempo, Sokaku Takeda.
Compreendo ser difícil de imaginar O-Sensei, o fundador de aikido, como um estudante.
Mas como todos grandes mestres marciais, ele criou o Aikido da própria visão do que lhe fora previamente ensinado.
Morihei Ueshiba era um artista marcial severo. Seu relacionamento e aprendizagem com Sokaku Takeda foi de cerca de vinte anos, estando bem documentado. Qualquer de vocês que assistiu ao Aiki Expo deve ter visto as fotografias fornecidas por Sensei Kondo que claramente mostram um certificado de Daito-ryu kyoju dairi (permissão para ensinar) pendurado na parede do Kobukan, dojo do Fundador. Sabe-se, tambem, que um número de estudantes de O-Sensei antes da II Guerra Mundial, receberam graduações em Daito-ryu e não em Aikido como o conhecemos hoje. Em sua juventude, Morihei Ueshiba foi considerado um professor severo, assim como era Takeda. Só pela vida inteira de treinamento diligente e severo pode a arte hoje conhecida como Aikido evoluir.
O Daito-ryu não é um “estilo duro” de Aikido. Ele é a antiga tradição secular que deu à luz ao Aikido e a numerosas outras artes.
Já ouvi shihans de Aikido dizerem que estudar Daito- ryu Aikijutsu é uma regressão! Ouso divergir e intrepidamente declaro que experimentei de primeira mão a surpreendente abordagem do aiki encontrada no Daito-ryu que poucos aikidokas tem demonstrado possuir.
Deve ser observado que O-Sensei simplificou muito dos modos antigos devido ao tempo que era necessário para dominá-los.
Mas sinto que algo foi perdido e acredito que essa simplificação excessiva criou seus próprios demônios.
Acredito que é uma tentativa verdadeiramente vergonhosa de muitos aikidokas pensarem que podem desenvolver um nível de proficiência em Aikido que o fundador só atingiu depois de uma vida inteira de treinamento contínuo.
O modo pelo qual o Aikido moderno é apresentado ao mundo é algo decepcionante.
Em maio deste ano, eu assisti ao Aiki Expo em Las Vegas e assisti demonstrações realizadas pelos maiores aikidokas do mundo. A natureza destas demonstrações variou das mais suaves às extremamente poderosas. E embora impressionante, a maioria do que observei envolvia uma falta de atitude marcial real. Os princípios básicos do Aikido (tais como movimento, timing, e kokyu) estavam lá, mas sinto que em algum lugar do caminho a natureza marcial do Aikido havia sido perdida.
Passei vinte anos treinando em artes marciais japonesas, chinesas e filipinas. Como um agente da polícia e instrutor de táticas defensivas, tive a oportunidade de experimentar muitos contatos físicos diretamente no dia a dia policial.
E sinto que muitos aikidokas enganam a si mesmos ao achar que um agressor descuidadamente atacará e se permitirá ser manipulado como uma boneca de trapo.
O Aikido foi fundado nos conceitos que promovem compaixão, paz, amor, e harmonia.
Mas escutem cuidadosamente às palavras de Sensei Mitsugi Saotome: “Quando os fortes falam de paz as pessoas escutam, mas quando os fracos falam de paz, ninguém dá ouvidos” ( livro Aikido e a Harmonia de Natureza).
Esta declaração, acredito, diz tudo.
Como podemos, como aikidokas, promover o Aikido como uma arte de paz e harmonia se ele é praticado de modo a apenas nos proporcionar um sentimento falso de segurança?
Durante anos, ouvi outros artistas marciais criticarem o Aikido por sua falta de severidade e natureza prática. Novamente, argumentarei que a arte não é a culpada, mas a forma branda em que normalmente é praticada e ensinada trouxe tais críticas. Compreendo que as pessoas treinem aikido por uma miríade de razões particulares.
Mas por favor, não diga que você treina uma arte marcial a menos que a treine como tal.
A arte foi projetada pelo fundador na tradição do guerreiro japonês e qualquer abordagem que lhe exclua a natureza marcial não é Aikido. Isto não significa que um aikidoka deve vestir uma armadura antes de treinamento, mas digo que a mente, corpo, e espírito são forjados por desafio e treinamento numa mentalidade marcial.
Em Budo, as palavras de Morihei Ueshiba estão cheias de imagens do guerreiro japonês e da cultura de guerreiro. O fundador escreveu, “Perceba que sua mente e corpo devem ser ocupados com a alma de um guerreiro, com uma sabedoria iluminada e uma cultura profunda”,
O fundador escreveu: “O surgimento de um ‘inimigo’ deve ser pensada como oportunidade para testar seu treinamento físico mental e ver se seu corpo realmente responde de acordo com os propósitos divinos”. Mais do que isso, o pensamento do fundador é extremamente claro quando afirma: “Sempre se imagine no campo de batalha sob o ataque feroz; nunca se esqueça deste elemento crucial de treinamento”.
Penso que o fundador estava certo de que teve uma visão de paz.
Mas esta visão veio da mente de um guerreiro.
Um guerreiro que claramente indicou que a iluminação e o forjar do espírito são resultado direto de treinamento severo e diligente.
Retirar a natureza marcial do treinamento também retira a agudeza requerida para forjar a espada do espírito!
Tenho treinado Daito-ryu Aikijujutsu desde de 1997 e recentemente fui solicitado (ou melhor comunicado) por Katsuyuki Kondo a prestar exame para Shodan em outubro deste ano.
Para mim, passar ou não, é secundário ao encarar os desafios que esta prova trará. Como um estudante sério de Aikido (atingi o posto de Yondan da Aikikai, em maio deste ano), eu sinceramente acredito que meu estudo em Daito-ryu foi inestimável a meu entendimento de aiki.
Acredito aquele Daito-ryu e Aikido são duas artes feitas do mesmo tecido e que um complementa o outro. Se voces pensam que Aikido e Daito-ryu são mundos à parte, peço que reavaliem suas posições.
Finalizo com algumas palavras do antigo Soke de Daito-ryu Aikijujutsu, Sensei Tokimune Takeda, quando indagado sobre a diferença entre Aikijujutsu e Aikido.
Ele declarou, “…tenho acompanhado técnicas de Aikido no Budokan do Japão mas vejo apenas demonstrações de técnicas macias. Elas não funcionariam numa situação de luta real. Os ukes auxiliam se jogando e fazendo lindas quedas. É como se praticassem apenas técnicas para se jogarem. Se seu uke cai numa queda linda, isso faz sua técnica parecer boa. Em nossa prática, nós não precisamos que nossos ukes auxiliem executando lindas quedas. Nós treinamos a projeção dos ukes. Se projetados adequadamente, eles não precisam ajudar na queda: eles simplesmente caem.” (Conversas com mestres de Daito-ryu).
Espero que essas considerações provoquem alguma reflexão.
Se algum dentre vocês está interessado em recuperar a natureza marcial do treinamento, por favor venha ao seminário e experimente de primeira mão o que estou tão desesperadamente tentando explicar.
Para qualquer esclarecimento adicional, por favor não hesite em contatar o Instituto Aiki de Artes Marciais.. Oferece instrução em aikido, Korindo, hanbojutsu, e Daito-ryu Aikijujutsu. Lembre-se de que nossos esforços não podem continuar sem o apoio forte desses sérios estudos de artes marciais japonesas tradicionais. Para aqueles dentre vocês que amam as tradições japonesas, mas não podem participar, a colaboração sob a forma de doações é sempre bem-vinda. O Instituto Aiki de Artes Marciais é uma organização sem fins lucrativos que conta com estas doações.
Sempre de vocês, no budo
Ted Howell- Dojo-cho, Pinelands Aikido, New Jersey.
Por Gozo Shioda
Eu disse anteriormente que o poder de foco e concentração determina a maneira pela qual usamos nossa força. Fundamentais para isto são o coração ou espírito, e o ritmo.
Todos estes fatores juntos formam o kokyu ryoku. Por coração, ou espírito, eu quero dizer a habilidade de entrar em um estado de esvaziamento. Este é o poder de concentrar nossos sentimentos, cujo impacto é muito forte. Nós freqüentemente pensamos em fazer alguma coisa desta ou daquela maneira, pois os seres humanos se encontram presos a planos – nós gostamos de planejar e de lembrar das coisas. No budô, é necessário eliminar planos e memórias ,e, ao contrário, nos colocarmos em um estado de esvaziamento. Neste estado todo medo desaparece, a, ansiedade é removida, e nós começamos a realmente perceber nossas habilidades, ganhando cada vez mais confiança em nós mesmos. Resumidamente, este é um estado mental muito sereno.
Neste estágio, nós podemos ler as intenções de nosso oponente, não com nossa cabeça, mas com nosso corpo. Nós podemos sentir como nosso oponente irá atacar. Em outras palavras, nós começamos a nos mover e sentir com o coração.
Outra faceta muito importante do kokyu ryoku é o ritmo. Nós devemos desenvolver o ritmo onkyu (lento e rápido). Por ritmo eu não quero dizer um movimento uniforme e monótono. Ao contrário, o ritmo de nossos movimentos deve se adaptar a uma dada situação. Essencialmente, é nossa respiração que controla nosso ritmo, inspirando ou expirando de acordo com a situação. Quando é necessário inspirar, nós inspiramos. Quando nós devemos expirar, nós expiramos. É isto que regula o ritmo de nossos movimentos. O ritmo é resultado da respiração. Quando o ritmo e a respiração se fundem, nós devemos adicionar shuchu ryoku (o poder da concentração). O verdadeiro kokyu ryoku é atingido quando estes três fatores se unem de maneira a formar uma coisa só. Quando isto acontece, nosso oponente perde a capacidade de resistir e torna-se completamente dependente de nós.
É essencial notar que nós não temos nenhuma intenção especial de fazer o oponente agir desta maneira – isto apenas acontece. Induzir o oponente a um tal estado onde ele se sente compelido a cooperar contrariando seus desejos, sem que ele se aperceba deste estado, é o princípio do kokyu ryoku.
Devemos dizer também que é preciso que nos tornemos inconscientes da existência do oponente para que sejamos capazes de atingir o kokyu ryoku.
O kokyu ryoku não é relacionado a qualquer conjunto de formas. Antigamente, Sensei Ueshiba nunca ensinava em detalhes. O que fosse que nós fizessemos, ele apenas dizia “está bom, está bom”. Desta forma, ele nos encorajava a evitarmos de sermos aprisionados pelas formas. O que é importante é nos colocarmos na melhor situação para nós mesmos. Mas mesmo que eu diga isto, eu sei que encontrar a melhor situação é algumas vezes algo muito difícil de ser feito.
O kokyuryoku se origina no esvaziamento. O kokyu ryoku não é algo que descobrimos através de algum treinamento ou exercício especial. A repetição diária das técnicas do Aikido forma a base para atingir-se o kokyu ryoku. Apenas após um treinamento uniforme, dia após dia, você poderá, com sorte, atingir o shingitai, quando o coração, a mente, o corpo e a técnica tornam-se uma coisa só, tornando o kokyu ryoku possível.
Ao invés de dizer que atingimos este estado, é melhor entender que um dia, sem sabermos quando, estaremos usando o kokyu ryoku. Isto pode acontecer inesperadamente, por exemplo, se estivermos diante de uma situação de vida ou morte. Em tal situação, a necessidade urgente de uma reação adequada pode servir como catalisador para o surgimento do kokyu ryoku. Repentinamente algo irá acontecer, e antes que tomemos consciência do que está acontecendo, o oponente estará no chão. Eu constantemente fico surpreso por não entender o que está acontecendo nestes momentos. Mesmo pensando cuidadosamente, eu não consigo definir claramente o que ocorre quando eu estou tomado pelo kokyu ryoku. Isto é o kokyu ryoku. Não é algo que possamos atingir quando quisermos. Na verdade, se estivermos pensando nisto, simplesmente não irá funcionar. Tudo deve ocorrer de forma natural. Qualquer idéia de atingir este estado nos prende a planos que serão de pouca ajuda para atingirmos o kokyu ryoku, e este é um fato que não é fácil de aceitarmos.
Mesmo que tenhamos atingido o kokyu ryoku uma vez, isto não significa que possamos atingi-lo novamente de maneira direta. De fato, tal idéia de repetição irá nos impedir de atingi-lo, e somente eliminando qualquer esforço consciente é que poderemos alcançá-lo novamente. Conforme acumulemos tempo de treinamento, isto nos levará a cruzar a fronteira.
Desta forma, um dia, nós nos tornaremos mestres do kokyu ryoku. É difícil descrever, mas neste exato momento surge uma sensação de êxtase, de imenso prazer, um conjunto de sensações que juntos formam uma experiência maravilhosa.
Esta experiência acontecerá de forma breve e inesperada, proporcionando uma inexplicada sensação de poder e conforto.
Eu acredito que não é possível experimentar este tipo de emoção através de atividades normais da nossa vida. Naquele momento eu posso dizer que perde-se o ego. Freqüentemente no dojo, durante as aulas especiais para alunos avançados, quando eu demonstro algo, eu me encontro em um estado de completo esvaziamento: nada existe naquele momento. Eu não possuo nenhuma intenção de resistir ao meu parceiro, na verdade eu perco a consciência de mim e do meu parceiro e nós nos tornamos um só.
É por isto que quando eu movo minha mão em uma direção, meu parceiro segue meu movimento. Se eu repentinamente mudar a direção, meu parceiro também mudará, todos se movem comigo. Como isto é possível? Eu não sei, mas se podemos atingir o verdadeiro esvaziamento, podemos fazer o impossível.
Isto é algo que eu não posso ensinar, mesmo se me perguntarem. Esta é uma sensação que devemos capturar para nós. Muitas pessoas estudam intensamente diversas técnicas de Aikido, e é muito triste que fiquem presas em um estado de pesquisa e não evoluam mais.
Muitas vezes acontece que por mais esforço que coloquemos em nossa pesquisa, não chegamos a uma conclusão. Nossos pensamentos permanecem turvos. Mesmo quando temos a intuição correta, nós perdemos nossa pureza quando adicionamos nosso pensamento.
O maior de todos os objetivos é aquele que vem de dentro de nós. Desta maneira é muito importante aprender a sentir com nossa pele e nosso corpo. “Torne-se um com a natureza”, diria Ueshiba Sensei, e apenas recentemente eu comecei a entender o que ele queria dizer sobre Deus, o Universo, e muitas outras coisas incompreensíveis. Minimamente, agora eu possuo uma noção do que ele dizia.
Aikido é a arte marcial cujo os movimentos mantém o corpo em plena condição física e harmonia com a natureza. Todos os movimentos são circulares pois não pretende vencer os outros, mas sim a si mesmo. Quando o praticante consegue chegar a este estágio está em completo domínio de si mesmo e passa a ser invencível. Este é um ensinamento que devemos levar para fora do tatami. Além deste ensinamento acredito que todos devam seguir algumas regras básicas para praticar a harmonia: – Nunca guardar rancor de ninguém; – Interpretar as maledicências como uma fraqueza indisfarçavel daqueles que as emitem; – Nunca deixar de trabalhar enquanto viver; – Não lamentar a chegada da velhice; – Não se considerar velho enquanto puder moviemntar o seu corpo; – Defender a sua família acima de todas as coisas; – Estar consciente que a soberba é a origem do fracasso; – Não lamentar as coisas que deixou de fazer no passado; – Encarar o fracasso como um ponto de partida para o sucesso; – Honrar sempre seus compromissos; – Ter sempre a coragem de reiniciar tudo, caso venha a perder toda a sua fortuna e títulos; – Desenvolver de modo resoluto a confiança em si mesmo. Este artigo foi uma contribuição de Nereu San de curitiba que nos mandou um recorte. Ele foi publicado originalmente no antigo boletim bimensal produzido por nagao sensei para a União Sul Americana..
Por Kishomaru Ueshiba.
O caminho do aiki e o caminho do sabre são, na aparência, radicalmente diferentes. O Aikido é praticado apenas com as mãos nuas, sem armas, enquanto que a arte do sabre requer o uso de uma arma. Mas, se tirarmos a casca, numerosos pontos comuns aparecem. Faz-se referência aqui ao Kenjutsu, arte do sabre de combate e não ao Kendo que é um esporte de competição. O Aikido apresenta similitudes mais com a arte antiga que com sua expressão moderna.
Admite-se que o Aikido se aproxima mais do Judo que da arte do sabre. Isso é compreensível se se considera que essas duas formas de arte marcial são praticadas com mãos nuas, e que se nos referimos superficialmente ao passado do fundador Morihei Ueshiba, o Jujutsu desempenhou um papel preponderante na criação do Aikido. O fundador, que por muito tempo praticou o Jujutsu da escola Daitô, adaptou um certo número de seus princípios ao Aikido; e técnicas tais como a chave de punho, as pancadas, as projeções ou as imobilizações foram elaboradas a partir do Jujutsu tradicional ou de sua forma moderna, o Judô. Mas as semelhanças se eclipsam pelas diferenças. No Aikido, por exemplo, não existe equivalente à pegada da manga ou da lapela do quimono indispensável no Judô. Além da ausência de corpo a corpo e da competição, o Aikido não integra técnicas ofensivas. Não existem técnicas no solo visando imobilizar o adversário por chaves ou estrangulamentos.
Os fundamentos
Entre as numerosas semelhanças entre o Aikido e a arte do sabre, encontram-se certos fundamentos: a posição de guarda, a distância ou o espaço que separa as duas pessoas, o olhar, os deslocamentos de pés, assim como as aplicações técnicas que são espantosamente parecidas, para não dizer idênticas. Enquanto que no Judô o quimono é usado frouxo, a fim de facilitar o corpo a corpo, no Aikido como no Kenjutsu, a vestimenta padrão é o hakama, a longa saia-calça tradicional dos japoneses que oferece uma grande liberdade de movimentos quando duas pessoas se encontram face à face. O hakama é usado igualmente em Kendo acompanhado de diversas proteções. No Aikido, os iniciantes geralmente não usam o hakama. A comparação detalhada do Aikido e da arte do sabre revela apenas um pouco das diferenças. A tomada de distância (ma-ai) pode ser um exemplo disso. Na arte do sabre, a distância correta entre duas pessoas é dada pelas duas extremidades dos sabres, se enfrentando, devendo cruzar-se ligeiramente a fim de que, com um único passo, seja possível dar um golpe mortal no adversário. No Aikido, quando duas pessoas se enfrentam, na posição hanmi, as mãos simbolizando as lâminas dos sabres não se tocam, e a distância correta deve permitir um máximo de eficácia na entrada (irimi). De mais a mais, com um sabre, o princípio de base continuará o mesmo quando da tomada de distância, qualquer que seja a altura da lâmina. No Aikido, ele vai variar segundo a técnica: os dois parceiros ajoelhados, um parceiro ajoelhado e o outro em pé, ou os dois parceiros em pé; um praticante enfrentando vários adversários ou um adversário armado.
Em relação a isso, não é possível estabelecer uma equivalência escrupulosa entre o Aikido e a arte do sabre, mas como nós sublinhamos, antes, os princípios de base, os movimentos e as maneiras de aplicação apresentam numerosos pontos comuns. Essas similitudes não são obras do acaso, mestre Ueshiba tendo, desde o início desejado fazer um bom uso das vantagens inerentes à arte do sabre. Ele se esforçou a dedicar muito tempo e energia a adaptá-los para integrá-los ao Aikido.
O estudo do sabre
Desde a mais tenra idade, mestre Ueshiba se interessou pela prática do sabre. Com efeito, antes de estar totalmente absorvido pelo Daitô jûjutsu, ele empregou seu tempo ao estudo do sabre, para dominar seus princípios. Mesmo depois de ter colocado o Aikido no ranking do budo, ele gostava de praticar o sabre e o bokuto (sabre de madeira). Houve um tempo onde o Kobukan Dojo abrigava um curso de Kendo, e entre 1936 e 1940, vários membros eminentes do Yushinkan, Nakakura,Kiyosji, Haga Jun’ichi, Nakajima Gorozo e outros freqüentaram nosso dojo. Na minha juventude, o fundador me incitou a estudar a arte do sabre da escola Kashima shinto, o que demonstra bem sua profunda ligação com essa arte e o respeito que ele lhe prestava. O Aikido não faz uso de nenhuma arma, é fundamentalmente uma arte marcial que se pratica de mãos nuas, mas a mão, por exemplo, não é uma simples extensão do corpo.. falar do sabre da mão (tegatana) permite sugerir que a mão se torna uma arma que corta como o sabre. E quando a mão é utilizada como um sabre, o movimento segue naturalmente o movimento do sabre. Esse é o exemplo da manifestação concreta de um princípio da arte do sabre em um movimento de Aikido.
Shiho-nage é o exemplo disso por excelência. O princípio da técnica é calcado sobre a manipulação do sabre. Em pé, em guarda à direita ou à esquerda, o sabre é levantado para cortar em quatro, dezesseis ou oito direções. A partir das técnicas de base do Aikido, entrada e espiral, o sabre da mão projeta os parceiros em quatro, oito ou dezesseis direções. Esta técnica pode ser modulada ao infinito, segundo a situação ou urgência. Quando o ataque é um golpe vindo da direita ou da esquerda do adversário, é possível responde-lo com shiho-nage. Se o ataque consiste em segurar os dois punhos por trás, e ainda possível, a partir dessa posição, realizar o shiho-nage. Quando os atacantes agarram os ombros de um parceiro ajoelhado, esse último pode se defender com um shiho-nage qualquer que seja a situação, shiho-nage segue mais ou menos a mesma construção.
Em um primeiro tempo, o equilíbrio do adversário é desestabilizado pela entrada e o movimento de rotação. Em um segundo tempo, o adversário é levado a seguir o movimento de rotação do defensor. Para terminar, a mão esquerda ou a mão direita (algumas vezes as duas) é utilizada como um sabre, levado acima da cabeça para descer de novo a fim de projetar o adversário.
No shiho-nage, cada movimento é ditado pela vontade de utilizar a mão como um sabre. Isso significa também que a mão do adversário é percebida como uma lâmina. Se bem que nenhuma das partes esteja armada, a ação é tão intensa como se duas lâminas nuas devessem se encontrar. Shiho-nage supõe que potência e eficácia emanam da concentração do ki e que o escoamento do ki, saído da respiração-energia, se exprime totalmente a través da mão – a lâmina do sabre – em um corte preciso e poderoso. Entre as técnicas do Aikido, shiho-nage é considerada como marca do começo e do fim da prática, a perfeição em sua realização como a demonstração do domínio em Aikido. Isso é devido ao fato de que essa técnica simboliza mais que qualquer outra a relação íntima existente entre o Aikido e a arte do sabre.
Apesar de que o Aikido ser fundamentalmente uma arte marcial que não faz uso de nenhuma arma, e que o treinamento consiste o mais frequentemente a opor dois adversários de mãos nuas, existe numerosas aplicações das técnicas de base para as quais será necessário recorrer a um sabre, faca, bastão curto ou longo. Nesses casos particulares, o princípio de usar a mão como um sabre será invertido, as armas sendo utilizadas e manipuladas não mais como objetos mas como extensões do corpo.
O gênio do fundador
O que foi dito deveria ser suficiente para demonstrar a relação estreita entre o Aikido e a arte do sabre. Mas isso não nos ajuda a compreender porque o fundador integrou a arte do sabre ao Aikido. De mais a mais, é preciso reconhecer o gênio do fundador que criou o Aikido inspirando-se fundamentalmente em duas artes marciais evidentemente de natureza diferente: o Jûjutsu clássico e a arte do sabre. Sua originalidade não reside unicamente na combinação assim obtida mas igualmente na maneira de se fazer um novo budo que soube tirar do que havia de melhor dos budos anteriores.
Criando o Aikido, o fundador realizaria seu mais ardente desejo: preservar no mundo moderno a herança inestimável do budo. A fim de chegar a seu objetivo, ele ultrapassou as querelas da forma para apreender a essência de cada arte marcial, desejando vê-la reviver em um novo budo. Ele foi guiado, nesse caso, pela profundidade de busca espiritual, procurando descobrir por entre o budo uma filosofia capaz de dar a vida e de preservá-la. O coração do budo foi transformado para se tornar o coração do Aikido, o caminho da Harmonia e do amor.
Kishomaru Ueshiba
Traduzido por Maria Imaculada de Araujo Walla
Traduzido por Pedro Escudeiro.
Poucas pessoas saberão tanto sobre a história do Aikido como Stanley Pranin. Além disso, ninguém tem sido mais importante na procura de dados precisos da história do Aikido como ele. O Aikidonytt encontrou Stanley para uma entrevista fora do Dojo de Iwama, no final de Maio, depois de uma sessão de fotografias com Saito Sensei para o seu novo volume da série Takemusu Aikido.
Como editor-chefe de Aiki News do Aikido Journal ele tem, há mais de vinte anos, documentado a vida de Morihei Ueshiba, fundador do Aikido. Stanley Pranin é conhecido pelo seu cuidado nos detalhes e precisão. Apesar da sua pesquisa, de tempos a tempos, lhe causar problemas, uma vez que as suas descobertas às vezes contradizem a história oficial do Aikido, o seu profundo conhecimento é muito respeitado por toda a comunidade do Aikido.
Qual era o seu objectivo quando iniciou o Aiki News em 1974?
O que aconteceu foi que, uns anos antes, consegui obter alguns documentos japoneses que eram uma série de um jornal que falava acerca da vida de O´Sensei. Como não havia uma tradução deles em inglês, então, com um amigo japonês traduzimos os dezassete artigos. Mostrei-os a algumas pessoas e toda a gente os queria, por isso, começámos a fazer umas cópias mimeográficas deles. Está a ver as máquinas desse tempo, e começámos a dá-los e as pessoas ficaram muito contentes. Sempre gostei de escrever e decorriam alguns eventos na área norte da Califórnia, por isso pensei, Bem, vamos fazer um pequeno boletim. Usámos os artigos de O´Sensei como a parte principal e depois algumas notícias locais daquela área. Escrevi um curto editorial e de vez em quando as pessoas enviavam alguns artigos; e por vezes vinha algum mestre japonês, fazíamos uma entrevista e era colocada lá. Começou a partir daí. Era apenas um passatempo. Era como uma forma de distribuir o que tinha vindo a pesquisar privadamente a uma audiência mais vasta.
O que considera ter atingido com o seu trabalho?
Consegui foi arranjar uma data de problemas! (Risos) Penso que mostrámos convincentemente em termos históricos que há uma grande ligação entre o Daito-ryu e O´Sensei e entre a religião Omoto e O´Sensei. Tentar removê-lo desse contexto é prestar um péssimo serviço e tornar muito difícil saber quem O´Sensei era, de que forma ele fora original e o que conseguiu atingir. Isso, e conseguimos historicamente documentar a posição de Saito Sensei dentro do contexto histórico do Aikido. Para além de ser talentoso, aconteceu que estava no local certo, na altura certa. Caso não estivesse empregado nos Caminhos de Ferro, não estaria aqui. Se tivesse um emprego de escritório das nove às cinco, e depois a sua família , nunca poderia ter treinado tão seriamente. Descobrimos algumas coisas históricas que são provavelmente interessantes só para as pessoas que gostam de detalhes. Havia uma ligação forte entre a família Inoue e a Ueshiba. Há uns setenta ou oitenta anos atrás. Há bastante tempo mesmo, isso foi muito, muito importante nos primeiros tempos do treino de O´Sensei. Eles promoveram-no e assistiram-no de muitas formas.
Fazia alguma ideia da dimensão que o Aiki News iria ter quando começou?
Não, creio que não sabia o que ia fazer. Tive um dojo durante algum tempo. Fui levado pelo facto de querer saber mais sobre O Sensei. Quando vim ao Japão pela primeira vez em 1969 comecei a procurar alguma informação e não cheguei a lado nenhum. Muito poucas pessoas quiseram cooperar comigo. Não havia quase nada também em japonês. Ninguém tinha feito pesquisa. O Sensei tinha acabado de morrer e os japoneses não pareciam levar muito a sério a pesquisa. Então, assim que me interessei e descobri algo, encontrei mais e tornou-se mais interessante e quis continuar.
Quais são os seus planos futuros para o Aiki News?
Documentar qualquer aspecto da vida de O Sensei que possa. Isso significa documentar o Daito-ryu em profundidade. Iremos publicar uma tradução em inglês da biografia de Onisaburo Deguchi este ano. Publicar o maior número de volumes desta série técnica com Saito Sensei que ele queira. Um dia gostaria de publicar uma série técnica do Daito-ryu. Há vários outros mestres que levaram o Aikido noutras direcções. Pessoalmente, não pratico os seus estilos, mas admiro e respeito estes professores. Gostaria de fazer algumas coisas com eles porque penso que o que eles fazem merece a pena. E depois, após uns anos, espero escrever uma biografia de O Sensei que vai ser séria, e uma vez que vou ser eu próprio a publicá-la não haverá um editor a dizer-me o que posso ou não fazer, ou que está muito longo ou detalhado. Farei apenas o que quiser fazer. Estou a pensar mais em quando eu morrer, o que posso deixar para trás.
Pode explicar a razão mais específica desta série de livros com Saito Sensei, para a que temos estado a tirar fotografias hoje?
Como tenho expresso nos meus editoriais ou no volume um desta série, Saito Sensei, grandemente devido a um acidente histórico, teve uma oportunidade realmente única de estudar com o Fundador em pormenor, mais do que qualquer um. Ele recebeu tanta instrução técnica directa do Fundador e como a sua mente é muito metódica, então foi capaz de classificá-la e explicá-la de uma forma que é muito, muito mais fácil de compreender. Assim, ao preservar as técnicas de Saito Sensei é a seguinte melhor coisa para preservar as técnicas de O Sensei. Não há qualquer outro mestre com quem eu possa trabalhar que saiba deste assunto com esta profundidade, que possa explicá-lo claramente ou que tenha visto O Sensei por um tão longo período de tempo e que tenha visto as alterações nas suas técnicas.
Neste momento estamos no Dojo de Iwama. Qual é a importância deste local para o desenvolvimento do Aikido, do seu ponto de vista de historiador?
É provavelmente o local onde O Sensei mais podia relaxar. Onde se sentia mais confortável nos seus últimos anos. Ele viajou para Tóquio, Osaka, Tanabe e Shingu, mas a sua casa era aqui. A sua casa em Tóquio tornou-se mais a casa do actual Doshu (Nidai-Ed.) do que a casa de O´Sensei. É claro que ele podia ficar lá, mas Iwama era basicamente o seu lar e, enquanto viajava, a sua mulher Hatsu estava aqui. Ela não estava assim tanto em Tóquio. A partir de 1942 esta era basicamente a sua casa. O Dojo manteve este sabor antigo. Não é um prédio de cimento moderno. As redondezas são muito bonitas e temos ali o Sanctuário do Aiki e para O Sensei o aspecto espiritual era muito importante. É um local muito especial e, provavelmente, depois da guerra, a única casa que O Sensei teve. Provavelmente, as pessoas de Tóquio vêem de uma forma diferente, mas é assim que eu o vejo.
O’Sensei passou a maioria do seu tempo aqui em Iwama quando desenvolveu o seu Aikido e como afirmou num dos seus editoriais o Aikido ensinado no Hombu Dojo foi desenvolvido por Tohei Sensei e pelo Doshu. Como foi possível que ocorresse tão grande diferença no desenvolvimento do Aikido?
Alguns anos atrás teria muita dificuldade em responder a esta questão. Basicamente, por falar com muitas, muitas pessoas e de ponderar sobre estas coisas durante anos e anos, cheguei a uma conclusão sobre isto. Tentei explaná-la num dos meus editoriais. Se analisarmos por quanto tempo as pessoas de grande nome estudaram com O Sensei, e por grande nome refiro-me a Doshu, Tomiki, Mochizuki ou Shioda, descobriremos que treinaram por um relativamente curto período de tempo. Devido à altura em que foram treinados , receberam alguma instrução, e depois foram enviados como professores, talvez depois de seis meses ou um ano. O próprio O Sensei ia viajando, portanto, não era como se estivessem a ter uma dieta de treino constante da parte do Mestre numa base diária. Quando vimos treinar em Iwama, Saito Sensei ensina uma ou duas vezes ao dia, excepto quando viaja. Mas naqueles tempos era como se viéssemos para aqui e depois de uns quantos meses fossemos para Mito ou Tsuchiura duas ou três noites por semana para ensinar. Numa tal situação em que estamos envolvidos no ensino, a quantidade de instrução que recebemos pessoalmente é limitada. Uma vez que a arte estava na sua infância e mais tarde por causa da guerra, a carreira de muitas pessoas que eram bastante talentosas foi interrompida. É claro que durante a guerra não se passava nada, e depois da guerra O Sensei estava aqui. Ele era já um homem idoso e estava retirado, por isso, as figuras principais em Tóquio eram Koichi Tohei e o actual Doshu. Não há dúvida sobre isso. Tohei era aquele que tinha o carisma, que era forte, treinou ainda por um tempo razoável com O’Sensei , viajou para o estrangeiro, falava inglês, escreveu livros. Era o ideal de toda a gente. Mesmo no Hombu Dojo muitos dos professores seguiram-no. Tohei Sensei estudou com o Tempukai. Portanto, muitos membros do Aikikai entraram para o Tempukai também. Ele detinha uma grande influência. Na mesma altura ele estava fora bastante, no Hawai, portanto, o Doshu e pessoas como Tada Sensei e Yamagushi Sensei tinham uma certa influência e alguns seguidores. Mas Tohei era a corrente principal. Ele era o shihan bucho, o instrutor chefe e o principal do grupo de instrutores. Depois da morte de O Sensei, Kisshomaru Ueshiba tornou-se Doshu e Tohei deixou o dojo em 1974, e veio a era do Doshu. Ele queria tornar as técnicas mais fáceis de compreender e menos estilo jujutsu, mais redondas e circulares. Agora está iniciada a gestão para o seu filho Moriteru, mas a sua influência não é O Sensei. Não é Saito Sensei ou Tohei Sensei, é o seu pai. E estão a remodelando o que é o Aikido em relação à sua imagem, penso que é da natureza humana. Contudo, está cortada das suas raízes históricas, da forma como eu vejo.
O Sensei estava consciente das diferenças que se desenvolviam no mundo do Aikido?
Temos que entender que O Sensei vivia de certa forma num mundo de sonho. Via-se a ele próprio como um veículo dos vários kami. Tohei Sensei diz, por exemplo, que O Sensei dizia qualquer coisa e os seus alunos diriam, Sensei, desculpe, não percebo, e ele diria, Não tem importância, eu também não entendo o que estou a dizer. Tohei Sensei diz isto para criticar O Sensei. O Sensei pensava só em como unificar com o universo. O seu vocabulário e o seu ponto de vista eram grandemente modelados pela religião Omoto. É uma religião Shinto, uma religião Xamanística e ele estava noutro mundo. Não estava interessado em organizações. Mesmo quando era jovem nunca organizava coisas. Deixava isso para outras pessoas. Ele estava interessado em treinar-se, fazer a sua meditação, a sua relação com Deus. Penso que se aborrecia se visse as pessoas a fazer coisas que ele considerava serem de um nível vulgar. Nos termos actuais acharíamos que ele era muito estranho ou excêntrico. E na altura ele era um ancião e depois da guerra já estava nos finais dos seus sessenta.
O que acha que vai acontecer no mundo do Aikido no futuro? Como se irá o Aikido desenvolver?
Uma coisa boa do Aikido é que está a difundir-se internacionalmente e que há pessoas que estão a trazer o seu treino de outros campos e outras ideias. Portanto, iremos encontrar o Aikido como fazendo parte de outras disciplinas. Talvez a principal parte ou talvez como complemento. Penso que certas pessoas desenvolverão o Aikido mais como um sistema de saúde. Poucos farão um estilo mais duro. Irá apenas dirigir-se em muitas direcções. Nalguns aspectos é forte, pois tem algumas figuras carismáticas e as pessoas tendem a praticar Aikido por mais tempo que outras artes marciais, porque não há competição. Há mais uma relação harmoniosa e é atraente para pessoas com um intelecto mais elevado. Se for Karate ou qualquer coisa parecida, há a tendência de serem homens novos que praticam por uns anos e depois saem. Mas no caso do Aikido, as famílias podem fazê-lo e pode-se praticar por vinte, trinta, quarenta anos e nos nossos cinquenta ou sessenta ainda podemos ter uma boa prática. Poderemos fazer um Judo competitivo aos sessenta, ou Kendo? Não muito frequentemente. Vai-se definir a si próprio e depois espalhar-se por todo o lado.
Qual é o seu conselho para todos os aikidoka na Suécia?
Façam-no à vossa própria imagem e façam o melhor que puderem. Devido ao meu carácter pessoal, gostaria de lhe adicionar outros elementos porque tenho outros interesses externos. Não é o meu papel necessariamente preservar o Aikido de O Sensei como praticante. Faço-o mais como académico. Saito Sensei tem este papel. Ele tem que cuidar da casa e do dojo de O Sensei . Ele tem a sua missão na vida. Hitohiro Sensei, o filho de Saito Sensei, tem a sua missão na vida. A minha é um pouco diferente. Eu encorajo as outras pessoas a investigar e se encontrarem alguém melhor que O Sensei que aprendam com ela. Se não puderem, pelo menos eduquem-se a vocês mesmos em saberem quem era e o que fez. Não têm que tentar fazer o Aikido que ele fazia, mas pelo menos compreendam de onde ele vinha. Então, adquiram a vossa base de seja qual for a versão de Aikido que estejam a fazer e façam algo de grandioso a partir dele.
Como se irá desenvolver o Aikido da escola de Iwama , e qual é a sua missão?
Somos uns afortunados por o sucessor de Saito Sensei ser tão talentoso e leal. Nem sempre acontece assim com os sucessores. Tenho realmente muitas esperanças. Ele vai-se expandir mais e mais, porque contém tanta essência dentro dele. Tem tanto conteúdo, que se pode passar várias vidas a estudar o estilo Iwama. Espero que não venha a haver nenhum movimento no sentido de uma estrutura organizacional rígida, porque essa tem os seus próprios problemas. Se Iwama se concentrar em preservar o Aikido de O Sensei e em disseminar a arte, e na prática das próprias técnicas, em vez de criar uma estrutura hierárquica, penso que o Aikido de Iwama estará muito bem.
Muito obrigado pelo seu tempo e pelo seu bom trabalho com o Aiki News.
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