Arquivo de agosto \03\UTC 2010

03
ago
10

A compreensão do Básico

Uma deficiência comum no treinamento de hoje é a falta da prática dos Atemi, ou ataques em pontos vitais. Os Atemi são usados para enfraquecer ou neutralizar um ataque do oponente  para criar-se assim uma situação favorável na qual pode-se   executar uma técnica. Em muitas situações é virtualmente  impossível desequilibrar um oponente forte, suficientemente para aplicar uma técnica sem recorrer-se ao Atemi. Aqueles que afirmam que o uso de tais ataques (executados com o intuito de  tirar atenção do oponente do objetivo principal da técnica) é   muito violento ou “não é Aikido” ignoram os conceitos do Aikido  ensinados pelo fundador que dava grande ênfase sobre a   necessidade de tais movimentos durante o treinamento. Os Atemi   são uma parte essencial das técnicas básicas e também avançadas,   e não devem ser omitidos de sua prática.

O fundador sempre iniciava as sessões práticas com os exercícios  de Tai no Henko e Morote Tori Kokyo Ho. Ele terminava cada  prática com o treinamento de Suwari Waza Kokyu Ho. Os exercícios   de Tai no Henko constituem a base dos movimentos Ura, ou   movimentos girando, e os dois Kokyu Ho, ou métodos de respirar,   ensinam como respirar corretamente, a coordenação apropriada do   corpo e como estender o Ki intensamente.

No treinamento do Aikido nós abrimos nossos dedos para estender o Ki através dos braços.

Abrir os dedos é uma forma de aprender as técnicas básicas, um treinamento que permitirá a você executá-las sem usar qualquer    força. Abrindo os dedos quando seu pulso é subitamente agarrado torna-o mais grosso, e dá à você uma vantagem. Para aqueles  aprendendo defesa pessoal é dito para abrirem seus dedos quando  agarrados porque o braço torna-se difícil de segurar.

O Ki é algo adquirido naturalmente através da correta prática  dos fundamentos básicos.

Se você se preocupar de mais com o Ki, você será incapaz de  mover-se. O Ki se manifestará por si mesmo naturalmente se você   estiver treinando corretamente. Uma vez que você tenha  desenvolvido o Ki, este fluirá livremente através de suas mãos  mesmo quando seus dedos estiverem relaxados.

O fundador considerava as técnicas de Ikkyo até Sankyo como    sendo movimentos preparatórios ao Aikido. No Ikkyo você treina   seu corpo; no Nikyo você Dobra seu pulso para dentro estimulando  e fortalecendo as juntas; no Sankyo você move seu pulso para  fora na direção oposta. Através da prática destas técnicas, você  desenvolve um corpo capaz de derrotar um inimigo com um único golpe. Estas técnicas básicas são sua preparação, e o   treinamento nas técnicas do Aikido começa através delas.

Outra parte essencial do treinamento dos fundamentos do Aikido é  o domínio da entrada e dos movimentos de giro. Se você decide  avançar, você deve avançar totalmente. Se você decide girar para   trás deve fazê-lo completamente. É difícil avançar depois de  desviar um golpe, a menos que você possua uma vantagem em força.   Portanto, gire sempre que necessário, como quando estiver em uma   situação onde você seja incapaz de bloquear.

A prática de técnicas girando é também necessária para se   aprender como mover-se livremente.

Recentemente, o Termo “Takemusu Aiki” tem sido usado bastante livremente, porém parece que poucas pessoas compreendem seu     significado. Takemusu Aiki refere-se à um estado onde técnicas   nascem infinitamente como resultado do estudo dos princípios do  Aikido.

No treinamento do Aikido – que inclui técnicas de mãos vazias,    Aiki Ken e Jô – é importante fazer claras distinções. Estas   incluem as distinções entre Ikkyo e Nikyo, Omote e Ura, técnicas  básicas e Ki no Nagare, e técnicas aplicadas (Oyowaza). Em uma  recente viagem à Itália, experimentei executar tantas técnicas  quanto podia. Concentrando-me apenas sobre as técnicas básicas, Ki no Nagare, variações e técnicas aplicadas, acabei por   realizar mais de 4 centenas de técnicas, e estou certo de que onúmero teria subido para mais de 6 centenas caso tivesse   incluído técnicas partindo da posição sentada, Hanmi Handachi    (Atacante em pé, defensor sentado), e técnicas de contra-ataque.

Não importa quão esplendidamente as pessoas escrevam sobre  Takemusu Aikido, eles devem ser capazes de executar estas  maravilhosas técnicas por si mesmos, se eles estão sendo   considerados como professores. Se vocês continuam à praticar    assiduamente de acordo com o método tradicional, alcançarão o    estágio onde serão capazes de executar um número infinito de    técnicas desde as básicas até as mais avançadas.

03
ago
10

Keiko

A mente e a filosofia de Matsuo Haruna

Como artista marcial (pelo menos um jovem artista marcial), como pessoa que acredita e pratica o Budo, acredito ser muito importante o estudo da história e das origens da arte escolhida, e também das outras artes. Para mim, conhecer o máximo possível sobre quem, onde, por que e como em relação às raízes de uma arte marcial é crucial para a completa compreensão dela, o que eu creio que dá à prática um significado mais profundo e completo. O estudo da história das artes marciais permite que se pegue o que é antigo e o aplique ao que é novo; compreender o antigo – às vezes ancestral – princípio de nosso estudo nos dá a habilidade de encontrar uma razão para nosso treino de hoje. A sociedade, a época e as armas podem variar, mas os princípios do antigo permanecem os mesmos, como as raízes de uma árvore, afetando e influenciando a humanidade em um nível abaixo da superfície.

Acredito que o estudo de sua história também é uma forma de homenagem e respeito às pessoas que são os pioneiros destas artes. Todas as formas e estilos de combate começaram com estes indivíduos colocando totalmente suas energias criativas e suas vidas no desenvolvimento de uma forma física, mental, e espiritual de autodefesa. Mesmo que nenhum verdadeiro artista marcial ou sensei aceite esta forma de “adoração”, é a estes homens e mulheres que devemos nossas práticas.
Dito isso, decidi devotar este artigo a outro indivíduo que, do meu ponto de vista, serviu como inspiração e fonte de direcionamento para muitos Iaidoka. O que eu descobri sobre este homem é o que eu acho que deve ser compartilhado. Suas realizações e sua atitude em relação a keiko é algo que todos podemos usar como aprendizado. Este homem é Matsuo Haruna Sensei.
Uma das coisas mais impressionantes que descobri sobre Haruna sensei é que ele começou a treinar já com idade avançada. Ele nasceu em 1925, mas ó começou a treinar iaido em 1972 – com 46 anos de idade. É uma idade em que as pessoas acham que são muito velhas para começarem qualquer coisa, quanto mais começar a treinar uma arte marcial! Mas Haruna sensei fez isso, e obteve grandes progressos no curto período entre 1972 e seu falecimento em 2002. Ele recebeu a graduação de Hachidan, e o titulo de Hanshi, no Muso Jikiden Eishin Ryu.
Ele foi o professor exigente e diretor do Musashi Dojo de Ohara, que recebeu o nome do lendário espadachim Miyamoto Musashi. Ele participou de cerca de 250 competições locais e nacionais e de demonstrações no Japão; perdeu 12 vezes, ficou em 3º lugar oito vezes e em 2º lugar 28 vezes, e uma dessas vezes foi em sua primeira competição nacional em 1978, em que ele ficou em segundo lugar. Ele recebeu o prêmio de Melhor Espírito de Luta 45 vezes, e o prêmio Espírito de Luta Especial (que é acima do “Melhor”) 15 vezes. Nas demais vezes, ele venceu.
Apesar de seu impressionante registro de competições, Haruna sensei não treinava para shiai. Para ele, shiai era apenas outra forma de treinamento. Ele acreditava que não importava o que fosse, shiai – demonstração, competição, exame – ou keiko (prática), sua atitude deveria ser exatamente a mesma – e é essa atitude é o que você deve treinar, como se sua vida dependesse disso!! Haruna sensei acreditava que a chave para o desenvolvimento de seu treinamento é levá-lo a sério. Sem essa atitude, sua prática sofre, e sua habilidade também. É a concentração, e um profundo foco nos fundamentos, o que permite o avanço de uma pessoa.
Apesar de eu nunca ter tido a oportunidade de estudar ou treinar com Haruna sensei, agradeço por sua vida, sua influência e sua contribuição para o iaido e os iaidoka. Isso reforçou minha compreensão, e tenho certeza que de outras pessoas, das artes marciais.

Haruna Matsuo Sensei, shitsurei shimasu!!!

Tradução – Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)

03
ago
10

Viva como as flores

O discípulo perguntou ao mestre:

“Mestre, como faço para não me aborrecer, com as pessoas? Algumas falam demais, falam de nossa vida, gostam de fazer intriga, fofoca, outras são ignorantes.  Algumas são indiferentes. Fico magoado com as que são mentirosas.  Sofro com as que caluniam”.

- “Pois viva como as flores!”, advertiu o mestre.

- “Como é viver como as flores?” Perguntou o discípulo.

- “Repare nestas flores”, continuou o mestre, apontando lírios que cresciam no jardim. Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas. É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora. Isso é viver como as flores.”

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A FLOR DE LÓTUS

De acordo com o Budismo, uma flor de lótus serve como assento aos que renascem no paraíso budista. No budismo, o lótus é o símbulo de pureza e perfeição da natureza búdica, inerente com todas as pessoas. “Assim como o lótus brota de dentro da escuridão da lama para a superfície da água, florescendo somente depois que se elevou acima da água e por permanecer imaculada sem se contaminar nem com a terra nem com a água que o nutriram, da mesma forma a mente, nascida do corpo humano, desabrocha suas verdadeiras qualidades( pétalas ) depois que se elevou acima das torrentes lodosas da paixão e da ignorância, e transforma as forças obscuras das profundezas em brilhantes e puros néctar da consciência iluminada.”

( Govinha, pg.89 in Philip Kapleau: Os três pilares do Zen. Ed. Itatiaia)




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